Lágrimar

Era um vaso fundo

Que foi enchido a custa d’água do choro que caiu

dos olhos de relógio que curiosos e acesos sempre perdiam a hora de se retirar

dos olhos cansados que teimavam em enxergar com ternura os fantasmas, fantasias, almas penadas perdidas e vazias

Era um vaso fundo, agora cheio das lágrimas misturadas

as de tom azul mais claro brotavam da fonte da sozinhez, de todos os silêncios que mataram as poesias cotidianas que nunca encontraram quem as lesse e significasse

as de azul mais forte eram mais grossas e deixavam na boca o gosto da fome de amor num mundo de pernas bonitas porém apressadas que todavia nunca chegavam a lugar algum

as prateadas caíram das nuvens da desesperança de dias melhores depois de tanto telejornal, tanta conversa de elevador, tanto dia a mais que era só dia a menos

Nesse vaso coloquei meu barco a navegar

Achei um mar de grandes embarcações loiras ruivas morenas mulatas negras todas portentosas salivantes coxas corpos peitos cheiros sexo oferta demanda projeções afagos pressas piruetas juventudes ousadia e convites atirados sem perguntas ou reflexões

O pequeno barco silencioso e tímido oferecia apenas a solidez e proteção da sua madeira firme e branca, as histórias de pescador de quem há muito convive com as profundidades sem medo e a disposição de tecer redes com o trabalho das próprias mãos

Tentando evitar o sal que corroe sua fibra a cada encontro, o pequeno barco segue mais um céu laranja atrás do porto seguro em que vai poder enfim ser admirado pelo que é e aí se repousar.

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