Cílios (ou 1/5)

Eu olho pra parede do prédio e ela está encostada, com as duas mãos abraçando uma xícara de café que aquece a ponta do seu nariz — já ensebado pelo clima infernal. Meus calcanhares rodam no chão até apontarem para a direção oposta de onde meus olhos se direcionam. Me ponho a andar com dificuldade, como se um gancho segurasse minha blusa me puxando na direção contrária.

“Oi, oi” um rapaz baixo me cumprimenta. Tenho que olhar para baixo, ainda sem conseguir me situar. “Eu te vi andando de um lado pro outro e pensei que talvez tivesse um tempo pra ouvir algumas propostas do nosso candidato”. Direciono meu olhar para o panfleto muito colorido, com a cara de um sujeito cujo nome eu conheço. Ele brilha com a força da casca de uma pupunha às três da tarde e o papel escolhido pela campanha não ajuda.

“Eu tô correndo, cara” respondo, cuspindo. Só ia contornar um quarteirão inteiro para não esbarrar com uma mulher. Por isso estou com mais pressa ainda. “Ei” ouço. É brega, mas acontece: alguns tecidos (que não são das minhas roupas) encolhem. Apertam. Tanto que parecem agarrar algo que quer sair, o que certas pessoas poderiam confundir com a borboleta que estaria tentando escapar das minhas entranhas.

Nesse caso, não engulo insetos há mais ou menos 20 anos: é ânsia de vômito mesmo. A reação fisiológica nojenta que conseguimos romantizar de alguma forma.

“Oi” repito, ao girar meu corpo. Parece que nosso último encontro aconteceu anos atrás, quando na verdade tem três dias que não nos falamos. E eu corro dela e do sentimento. Enquanto pensava nisso, a mulher parada na minha frente já havia feito uma pergunta (que eu não escutei).

“Desculpa, não escutei” mesmo a voz dela sendo estridente. Mesmo estando na minha frente. Ela sorriu e um de seus cílios caiu na bochecha. Quase que automaticamente, como um reflexo, meu braço e meu dedo se esticaram até o pedaço de cabelo. Estendi o cílio em sua direção, esperando a reação.

“Vou fazer o pedido depois que você me responder: pra onde tu ia? Eu tava na porta do prédio te esperando chegar, sabe?” ela revelou. Eu tinha visto, sim. E fugi como uma criança cujo peito rouba o ar que articula as palavras em som. Já tinha dito tudo e não sabia o que falar nessas situações cotidianas. Eu esvaziei meu vocabulário contigo, era o que eu gostaria de ter dito. Já não tenho mais o que dizer.

“Eu esvaziei meu vocabulário de ti” respondi, ofegante. Não percebi o erro até a terceira risada nervosa escapar sua boa. “Me desculpa. Eu tô meio devagar hoje”. Ela balançou a cabeça: tudo bem.

“Eu queria saber em que pé a gente tá. Tô pra me atrasar pro trabalho, né? Daí queria saber se tá tudo bem” ela perguntou. Um negócio que não dá pra perguntar às 8 da manhã. Sempre fazia as perguntas complexas demais na hora errada.

Vou contar um negócio pra vocês: não tava até porque a última vez que a gente se viu ela tava linda e tava num pijama com o cabelo horrível de sujo e umas olheiras dignas de maratonas de série e eu falei que amava ela e ela disse que não me amava e o irmão dela entrou na casa e a gente continuou vendo série e eu segurando o choro durante 4 horas de Stranger Things pra no final nem conseguir entender o que ela quis dizer com aquela palavra no meio de um frase que ela falou chorando e eu nem entendi e sei que com certeza não tinha sentido nenhum.

“Sei lá qual pé. O direito seria o pé certo, em uma analogia. Mas o esquerdo é foda também né, porque remete à esquerda política” respondi. “Não estamos em pé nenhum. Como diriam os jovens, pisa menos” e ri. Sem graça. Ela me olhou como se fosse chorar de novo. Senti meus olhos pesados.

“Se a gente continuar chorando toda vez que falar disso, não vamos conseguir chegar a lugar nenhum” ela enxugou as próprias lágrimas.

“Onde a gente quer chegar? Não tem um destino Nana, só uma viagem longa e muito doida”.

Show your support

Clapping shows how much you appreciated Juliana Araujo’s story.