Com muito orgulho, meu amor


Moro numa cidade terrivelmente desligada de si. Ela é mulher, moça-forte-do-presépio. É uma garota em formação que ainda está aprendendo a gostar de si, do seu corpo, sua personalidade forte. Ela compra as fofocas que contam dela, o que vendem pro seu turista. Acredito que seja uma ligeira falta de amor próprio. Mas ela é incrível.

Nós todos já olhamos pra uma pessoa, a primeira vista, e pensamos: nossa, você tem uma beleza única, mas ela é desinteressante. Meus primeiros 18 anos de convivência com a minha cidade foram populados com uma admiração sem curiosidade. Eu sentia um tédio profundo de viver onde vivo. Essa convivência rotineira me cegava para as explorações que podiam ser feitas.


Eu sentei na beira do rio Guamá conscientemente pela primeira vez no início de 2014. Eu senti o cheiro da minha cidade através das águas que a banham de quase todos os lados. Fui descobrindo que o tédio de conviver com ela era ocasionado pelo que eu via e não pelo que ela era na sua essência. O que ela escondia de mim?

Eu conheci pessoas que não queriam transformar sua personalidade, mas a aceitavam como era. Globalizada e tradicional, onde os edifícios modernos são a única coisa que pode ser vista no horizonte, mas andando pelo asfalto dá pra ver peculiaridades de suas tradições e o quão diferente do amorfo mundo contemporâneo ela é.

Seu clima, sua flora, seus prédios mal-colocados, os desvalorizados prestes a desmoronar, seu esgoto a céu aberto, sua periferia, as bandeirinhas vermelhas que falam do roxo. Gente que respeita a essência dessa pessoa que passei a amar. Essa criança de quase 400 anos, a filha renegada que sempre tive, mas nunca carreguei no colo.


Deitei na grama. Dava pra sentir as formigas caminhando na minha pele. O tempo estava fechando e eu tinha alguns minutos antes de começar a chover.

Os 10 minutos de clima ameno do dia.

O vento e o cheiro das árvores inundavam os sentidos. Alguns universitários passeavam na beira do rio. Eu estava descansando a alguns metros dela, perto de um prédio pálido que lembrava as construções setentistas — quase tão antigo quanto a própria universidade. A maioria das pessoas que passavam me conheciam, mas nenhuma delas se aproximou. O meu tempo - tão meu -, a sós com a grama e o vento e o cheiro da água, foi preservado mesmo que inconscientemente.

Quando começou a chover, levantei. Até alcançar o toldo, a chuva tinha desenvolvido para um toró. Atrás de mim, uma voz: “Foi por pouco, não foi?”. Desconhecia a voz e, quando me virei, descobri que também desconhecia a face.

“Não tenho medo de me molhar”, respondi defensivamente.

“Então porque saístes de lá?”

“Tenho que ir”.

Andei até a parada e tomei um banho de chuva. O cheiro da chuva é um pouco diferente do cheiro do rio. O cheiro do ônibus é bem desagradável. Inspirei todo o ar antes de entrar no carro coletivo. Estava tão cheio e tão abafado que antes de sentar, gotículas de suor já se formavam na minha testa.

“Égua, puta merda, que calor” reclamou uma senhora dois assentos a frente.

Sorri. Saindo do Guamá me senti friamente assistindo a desigualdade e a pobreza. Olhando para dentro das ruelas de chão de terra, entulhos bloqueando a vala, gatos de energia e o constante trânsito caótico. Bicicletas sendo jogadas do meio-fio por carros em alta velocidade. Feirantes lavando as mãos em água do esgoto.

Meus olhos se viraram para uma senhora, comerciante de fantasias de festa junina, que ria o riso mais gostoso que já tinha ouvido. Um garoto que corria com uma pipa, desviando dos fios de eletrecidade rompidos. Uma mulher que entrava no ônibus e respondia torto para os homens comentando que era “traveco”.

“Com muito orgulho, meu amor”, ela disse.

A gente abraça quem a gente é e é assim: difícil, mas não dá pra não fazê-lo.

Desci do ônibus e ouvi, novamente às minhas costas, alguém dizer: “Acabou pegando a chuva, não foi?”.

“Foi sim. Tava impossível fugir dela”. Dela, Belém.