Ensaio sobre o “ser mulher” da sociedade ocidental.

Assisti um vídeo da Camille Paglia no Roda Viva hoje... Um horror no geral. Um tempo depois, algumas amigas começaram a discutir o que ela debate, além de ficar surpresa com o número de asneiras sobre transgêneros. Ela tocou em um ponto que me pôs a pensar: disse que o declínio das culturas é inevitável — sim — , mas o que me surpreendeu mais foi a ideia de que, após esse declínio, as mulheres vão voltar a depender dos “homens sendo homens”. O que, no caso, é problemático da raiz até a ponta da folha.

Eu não sou doutora em nada (mal saí da graduação), mas me parece que a construção do “masculino” e “feminino” tem viés ao mesmo tempo biológico e de disputa de poder. As sociedades tradicionais que já li sobre tem menos distinção sobre essas construções do que a nossa sociedade ocidental. Ou seja, até que ponto, quando houver a extinção da nossa sociedade, haverá opressão no nível que existe hoje?

“As mulheres e as crianças voltarão para as casa e os homens terão que sair animais selvagens com as mãos”, diz Paglia. Eu tive que ler de novo pra entender o que ela tava dizendo. As definições biológicas afetam sim a construção de gênero de uma sociedade que ainda não tem a complexidade de relações que temos. Então ela precisa de reprodução para se manter e não tem as “facilidades” da vida moderna — na cozinha principalmente. O fato é: quando que a criação dos filhos e a cozinha para a comunidade passou a ser considerado menos importante do que a caça?

Pensa comigo: as comunidades recentemente sedentárias são bem maiores do que a família nuclear (pais e filhos). Fazer comida pra toda essa galera é muito complicado. Quem trabalha em cozinha sabe, ainda mais quando o processo de cozimento não é só misturar o que tá em latinhas. Essas mulheres que não caçam — logo, menos valorizadas— fazem algo tão importante quanto sair para matar animais “com as mãos”. Elas plantam e alimentam a comunidade inteira.

As mulheres são desvalorizadas na sociedade atual porque tem sua figura ligada aos trabalhos domésticos ou eles são desvalorizados por serem “femininos”? O capitalismo, com o lucro e a competitividade que transformavam a ideia de poder em algo mais opressor do que já era; a indústria alimentícia, que facilitou a produção das refeições, mesmo envenenando os consumidores; e a segmentação das comunidades tradicionais em “famílias”, e mais tarde em nossas famílias nucleares, que reforçara a divisão de tarefas e a importância do trabalho fora de casa, parecem ter sido eventos decisivos na desimportância dada aos trabalhos domésticos e culinários.

O capitalismo transformou as trocas sociais, individualizou as posses (talvez tenha criado esse conceito?). E o responsável por elas e pelo lucro que elas precisam produzir? O homem. O poder que isso envolve é definitivo pro que acontece com o papel da mulher. As relações de poder no gênero, que se firmam mais ou menos a partir da monetarização das posses, trabalham para que os gêneros — construções curtas, baseadas no sexo biológico — virem, lentamente, o monstro que são hoje.

As definição de feminilidade é toda a serviço de uma opressão porque precisa existir uma manutenção desse poder. A cozinha, a maternidade e a colheita eram trabalhos femininos que foram relacionados a uma espécie de não-trabalho e, por isso, foram desvalorizados. O discurso sobre o feminino nunca esteve em alta, mesmo que através de falsos elogios. “Você é tão delicada” é uma coisa que, apesar de boa, é ruim. Delicada, em um discurso que a palavra é associada ao feminino e que o feminino é menos do que nada, significa incapaz.

E tem outro ponto. Fredric Jameson, teórico da pós-modernidade, indica que, no estágio de complexidade que a nossa sociedade se encontra, se voltando à inteligência e à inventividade, a regressão aos estágios sociais mais básicos não seria completa. Os sobreviventes das supostas catástrofes que Paglia cita no vídeo seriam estimulados mentalmente o suficiente para focar cada vez menos na força física e cada vez mais em desenvolvimento de mecanismos para segurança do grupo e formas de alimentação. Ou seja, paridade de gênero.

Então, não, Camille. Não tô dizendo que tás errada em pensar no declínio do Ocidente. Mas falar de uma dependência feminina para com a força e violência natas dos homens — o que é discutível —, além de crer que a nossa sociedade tem um nível de complexidade que permite essa regressão é, no mínimo, estranho. Só desenha seu pensamento como limitado pelo próprio Ocidente que tanto criticas e as Histórias que ele conta.

  • Gente, esse texto é puro achismo. Não tem base científica. Se alguém discorda ou conhece algum estudo sobre qualquer uma das coisas que eu falo aqui, comenta ou me manda que eu corrijo. Isso foi só uma inquietação que eu tive que escrever.