Leve

“Nos últimos dias eu amei demais”.

Ela levantou os olhos. Deixei passar alguns segundos antes de começar a explicar.

“Quero dizer que usei a reação do Facebook. Em publicações bestas, como dicas sobre Pokémon Go, um vídeo de um gato-enfermeiro, uma música que gosto muito versão acústica. Sei lá, perdi a vergonha na cara de me empolgar com as coisas”.

Sei lá.

Ela subiu um dos cantos da boca num meio sorriso. Me ajeitei na cadeira — objeto desenhado por algum profissional para que eu me sentisse confortável. Era aquelas cadeiras que abraça, sabe? Casca de ovo eu acho que é o nome.

Chique.

Conversamos sobre algumas coisas que não lembro agora. A gente tava esperando o horário do voo. Tinham pessoas que conhecíamos que entravam e saíam do quadro, mas não lembro quem eram agora. Não lembro do que disseram.

Lembro as palavras que me fugiram a cabeça. Tensionamento. Originário. Tropical. Fiquei remoendo até achá-las enquanto o silêncio incomodava mais a cadeira do que a mim, já que a coitada gosta de exercer sua função — aquela do conforto — direitinho.

Tomei uma água de 10 reais.

“O que seria a falta de vergonha na cara em assumir que a gente ama o que a gente ama?” perguntou depois de um tempo. Eu não lembrava do nome de uma das pessoas que sentou perto da gente pra esperar a ponte-aérea e se apresentou, entrando na conversa, mas lembrava exatamente ao que ela se referiu com essa frase.

Reações online. Mesmo assim fingi que não tinha entendido. Foi um reflexo, não me julguem.

“Tu falou ainda agora sobre usar a reação amei muitas vezes. Não entendi porque isso seria um problema”.

Sei lá.

“Por algum motivo parece que é uma reação muito extrema. Empolgada demais” me embolei com as palavras. Suas linhas de expressão se tornaram mais notáveis ainda. Tive que me aprofundar na explicação. “É aquela velha história: sentimentos extremos por pouca coisa é sinal de fraqueza. Gostar muito te deixar vulnerável e qualquer sinal disso é tido como superficialidade”.

A expressão se tornou mais leve, mais frouxa. Os lábios se tensionaram — HÁ! Essa palavra! — como se fosse dizer algo. E não disse, talvez porque fosse expôr um sentimento extremo.

Quando os vôos mudavam no quadro de chegadas e partidas, vi o status do meu mudar de EMBARQUE PRÓXIMO para EMBARQUE IMEDIATO. Ela segurou a minha mão, não como se fosse me impedir de levantar, mas porque tinha entendido que perdera a chance de fazer isso na última hora e meia que passamos lá.