Meninas e provadores

A primeira vez que eu chorei em um provador foi quando eu tinha 12 anos. Experimentava um biquini e a minha mãe aguardava do lado de fora. Por ter desenvolvido rápido demais, estrias começavam a surgir no colo e nas coxas. Vermelhas e destacadas pela luz do vestiário, que realçava a diferença entre as marcas e a minha pele “normal”. Não lembro de muito mais do que aconteceu além da sensação de que existiam ranhuras no meu corpo que o fariam para sempre inferior.

Não foi a primeira vez que eu me achei feia — quando a gente é criança, ouvir isso é comum em disputas entre iguais -, mas foi a primeira vez que isso me afetou tanto a ponto de me fazer chorar. Depois disso, foi ladeira abaixo. Dizer que a gente é bombardeada por imagens e ideias que destróem nosso autoestima é ser repetitiva. Quem viveu a socialização de um corpo feminino sabe disso. Aprendemos como deveríamos ser, com o que devemos parecer — imagens irreais e inalcansáveis.

Isso já é dito.

O que não parece real é o quanto esse padrão adoece especialmente as mulheres. Falamos de distúrbios alimentares como se acontecesse , e não aqui. Quando despertei para esse debate, pude enxergar a quantidade de colegas e conhecidas que já tiverem algum problema em relação a como vêem o seu corpo. E as medidas que tomam para mudá-lo.

Ouvi calada receitas de “dietas loucas” serem repassadas de boca em boca. Dietas essas que consistiam em provocar reações alérgicas para “limpar” a barriga, tomar laxantes antes de eventos importantes e comer dia sim, dia não. Todas interpeladas com alguns “nossa, tá louca?”, mas também por risadas. Também por vários “mas”. Mas olha que tu ficou linda no vestido! Mas agora tás mais magra mesmo! Mas pelo menos funciona, né…

O nome correto para essas ações seria “mutilação”. E a culpa não é das mulheres que as realizam, muito pelo contrário: são vítimas de uma criação que mutila o autoestima das mulheres e que diz que ser bonita — seja lá o que isso significa — é a melhor coisa que elas podem ser. Vivemos em uma sociedade que decidiu que a magreza é sinônimo de ser atraente e ser atraente é ser feliz.

Vejo a discussão sobre cirurgias plásticas com um peso na decisão individual: se você quiser fazer, faça. Se é o que te faz feliz, faça. Como se fosse normal ser cortada e costurada para se sentir feliz. Para sentir que o amor que os outros dirigem a você é real.

Claro, não vou dizer que é fácil resistir a vontade de se alterar. Nunca fomos ensinadas a gostar do corpo que temos, tem sempre alguma coisa para mudar. Mas a minha menina chorona de 12 anos não estava nas minhas estrias — que hoje são menores (porque passei ácido na minha pele durante alguns meses) e não são mais avermelhadas — e nem estão no meu braço que balança quando eu dou tchau.

A criança que chora está na minha cabeça e não existe cirurgia ou magreza que dê jeito. Se remendar o meu braço, vou desgostar da minha barriga. Se plastificar minha barriga, vou achar problema na minha nuca. O amor próprio é o remédio para a nossa alimentação ser um processo de nutrir o corpo, não de destruí-lo. E não é possível achar qualquer amor rapidamente. Temos que ter a paciência de nos cuidar. É só dando carinho e tempo que conseguimos estabelecer uma relação com alguém, então porque cargas d’água a gente pensa que estaremos satisfeitas assim que atingirmos o padrão de beleza?

Se olhar e ver um monstro, um ser humano cuja aparência rechaça qualquer pessoa, não é normal… e isso é cada vez mais comum. Olhe em volta. Converse sobre o tema com meninas jovens, com suas próprias amigas. E todas as vezes que uma solução rápida para um “problema estético” vier à mente, fuja. Nós não somos monstros, mas eles habitam nossas mentes e as vezes são mais perigosos do que os seres do mundo externo.