Blade Runner 2049, Her e as mulheres perfeitas

Eu assisti Blade Runner 2049 duas vezes. Devido um engarrafamento absurdo e um ingresso que já tinha sido comprado, a primeira cena que vi do filme foi chocante para um olhar de crítica de gênero: uma esposa holográfica e uma prostituta se unindo para que a primeira pudesse dar uma relação sexual real a K, personagem do Ryan Gosling (com aquela expressão de tábua de passar roupa de sempre). Penso na Joi e me lembro da Samantha de Her — essa cena que mencionei inclusive também existe no segundo filme.

É constrangedor perceber que são esses dois sistemas operacionais são mulheres perfeitas aos olhos do sistema patriarcal: sua existência orbita um homem, igual a narrativa de ambos filmes. Elas sabem tudo sobre eles e se ajustam ao que precisam, estando sempre junto deles, sem vidas e aspirações próprias — o que muda na personagem da Scarlett Johansson no final de Her.

Homens solitários que se agarram em sistemas operacionais feminilizados.

É constrangedor porque a necessidade de mulheres nesse molde é real. Eu consigo enxergar “produtos” como a Joi sendo comercializados em um futuro próximo porque existe demanda para isso. De homens que não conseguem se relacionar com mulheres porque não nos enxergam como seres humanos, assim como o Theodore de Her, que não conseguem compreender que uma mulher está em busca da própria felicidade — as vezes acompanhada por ele, as vezes não.

Eu acredito que a crítica em Blade Runner 2049 é explícita. A cena em que a Joi gigante fala com ele é prova disso: ela era tudo o que ele queria ver, tudo o que ele queria escutar — incluindo o fato de que ele deseja ser o Milagre e ela constantemente repete que ele é. Diferente da Samantha que é criada para Theodore, mas tem consciência e se liberta, a programação da Joi impede que ela queira qualquer coisa fora do universo de desejos do K. Impede que a relação seja real. Não tô tentando conceituar “realidade”, que é uma das questões mais interessantes da franquia, mas sim conexão.

Tudo o que você quer escutar.

O que é uma relação com outro ser humano? É aprender sobre o outro e deixar isso mudar a gente. Enxergar mulheres como adereços de homens, que renovam seus egos e não tem opiniões que ultrapassam o esperado por eles, desumaniza (literalmente) quem somos e alimenta as expectativas que os homens tem da figura feminina cuja função é atender suas necessidades, sendo magra, branca e !!toda depilada!!, como no caso da Joi. Precisamos nos questionar, para evitar a caminhada que aparentemente continuamos a fazer em direção a esse futuro: como enxergamos as mulheres ao nosso redor? Como são as relações que conhecemos e como os homens héteros ao nosso redor tratam suas companheiras?