Cabeça pra baixo

Equilíbrio nunca foi meu forte. Quão mais para as nuvens estivesse minha cabeça, mais para o chão meu corpo parecia pender. Como um desejo desesperado por firmeza. Na busca incessante pela solidez do chão, acabei me encontrando com o desequilíbrio do corpo, com a fragilidade da alma.

Cansada da relatividade de tempos líquidos, resolvi desafiar leis inexoráveis, resolvi desafiar meus medos e enfrentar a gravidade.

Se com a cabeça no ar, meus pés se perdiam com o chão, quem sabe invertendo a ordem dos fatores poderia surgir algum produto? Quem sabe se a mesma força que nos prende ao chão não espera de nós a reação de subverter à ordem?

Triângulo equilátero com as mãos e a cabeça, hora de testar se essa é mesma a base mais sólida da geometria. Falta força, falta fé. Os pés parecem não ter impulso suficiente para se soltar do chão. É a lei do apego, a lei da inércia. É um tronco meio retrocido que não sabe ainda mudar o sentido de sua seiva.

Tenta mais uma vez, dessa vez os cotovelos servem de apoio. Que bom pensar que eles servem para mais do que ajudar a falar quando se precisa dizer muito. Pensar que pelo menos se dessa vez doer, foi por tentar sustentar algo com mais quilos que o ar, mas com menos peso que a dor.

Tenta outra vez,não dá. A mão dói e os punhos ameaçam a torcer, é mais jeito do que força. Tudo é mais jeito do que força, mas nossa falta de jeito, nossa falta de manha, faz querer ter tudo à força, a pulso.

Alguns amigos se aproximam e tentam me ajudar. “Deixa que eu seguro aqui em cima”, “eu já empurro pra você”. Dessa vez vai, os amigos estão aí pra isso, não é? “I get by with a little help from my friends, I get high with a little help from my friends”. Não é assim que diz a música de quatro amigos inseparáveis que acabaram sem se falar?

Estou de cabeça pra baixo(!), finalmente aconteceu. Escuto dizerem que estou de ponta-cabeça e me sinto ultrajada, minha cabeça é redonda e sempre imaginei como um mundo pronto a ser navegável, sem começo, meio e fim, sem pontas. É como se a Terra voltasse a ser plana, é como se o que julgava infinito, tivesse cantos, é como se pudesse encontrar o fim.

De repente alguém me solta, me falta o ar, os pontos à minha frente piscam, eu lembro que não nasci acrobata e caio. O chão parece se voltar contra mim, me puxar pra ele e dizer a quem pertence.

A ajuda dos amigos foi fundamental para subir e ela também é fundamental em todas as quedas. Afinal, meus cotovelos e punhos servem para mais do que dores figurativas. Às vezes eles suportam dores reais.

Ainda que fundamental, fico com uma suspeita. O excesso de confiança que eles colocam ao me empurrar, faz com que eu caia. Quando a subida não é só minha, quando não sou eu a enfrentar o chão, o meu corpo desaba. Perde o referencial, perde a medida, não sabe o que é dele e o que é emprestado do outro. O corpo cai.

É só mais um corpo no chão, em meio a muitos outros corpos. É só um corpo desengonçado que diante da ajuda do outro, mais se atrapalha do que sustenta. Uma hora temos que aprender a cair, uma hora esse medo precisa passar.

Na aula seguinte, com pescoço mais alongado e coração mais contraído, vou pra aula com a resiliência que só a experiência é capaz de trazer. Nessa aula, por coincidência, aprendo a cair.

A queda é fazer uma cambalhota, a brincadeira de criança das que mais gostava. Aprendi a virar cambalhota (ou Maria Escombona,para bons entendedores) porque não conseguia virar estrelinha.

Quem diria, que ao não conseguir ser estrela, aprendi como suportar à queda de um mundo invertido.

Sabendo como cair, ousei ir sozinha. Sabendo que, não mais o céu, o chão era o limite, voei.

Desafiei à fisica, alinhei-me a mim. Equilibrei.