E por falar em saudade

Muitas coisas a gente aprende sozinho. Muitas coisas alguém precisa ensinar.

Eu sempre amei as palavras e acolho elas como amigas íntimas que entendem todos os meus dramas e que incentivam todas as minhas fugas.

Já cheguei a discutir em sessões de terapia se era um dado adquirido ou nato da minha personalidade. Se é uma amizade espontânea ou aquela relação que se constrói com o tempo.

O primeiro dicionário com o qual tive contato era gigante e devia pesar quase a mesma coisa que eu (e fui uma criança gordinha). Era de capa grossa e tinha aquele ar enciclopédico de livros antigos. Estava assinado no meu nome e datava 1992.

Eu sou uma filha beeem tardia dos anos 80 (por 5 dias não virei o ano) e não sou nenhum prodígio. Aos 2 anos eu não sabia ler, eu mal devia saber falar, mas eu ganhei esse dicionário e lá estava o meu nome escrito com uma letra bem caprichosa.

Deve ter sido o primeiro livro que a minha vó me deu.

Acho que minha vó foi também minha primeira professora. Não só pelas lições da vida, como nunca apanhar na rua e não bater de volta ou não tomar banho depois do almoço para não morrer estoporada. Mas aquelas lições triviais de ler, escrever, somar, diminuir.

Eu cresci com a minha vó e toda tarde ela me sentava na mesa e via os deveres de casa comigo. Eu era esperta (para não dizer um pouco nerd também) e adiantava os deveres com uns amigos mais velhos que eu tinha na escola, assim ficaria livre para ver Sessão da Tarde. Minha vó, naturalmente, era mais. Ela não se satisfazia com as lições pedidas pela professora. Ela comprava cadernos de verbo para eu conjugar, me fazia decorar tabuada, arguía sobre capitais do mundo, me ensinava sobre bacias hidrográficas.

Os construtivistas dirão que é um método antiquado, que a criança precisa interagir com o conhecimento e não apenas ser um depositário de informações aleatórias. Eu concordo, mas também admito que boa parte da minha cultura geral não veio das informações problematizadas que eu discuti mais velha na escola, mas daquela base sólida de regras firmes. O valor imutável da disciplina e da constância na gente.

Eu sempre tive boas notas e consigo ver que parte da disciplina em que me reconheço e me conforto hoje, vem dessas tardes de ditados em caligrafia. Vem desses dias regados por amor e atenção. O amor nem sempre é meloso e doce, às vezes ele vem em palavras duras e bem humoradas, mas ele está sempre lá em cada traço de cuidado e tempo dispensado com o outro.

As pessoas amam de formas diferentes, porque ninguém é igual. Minha vó amou a mim e ao mundo com cores vibrantes, risadas altas, comentários inconvenientes e histórias hilárias.

O amor é sempre autêntico quando respeita o autêntico de quem ama.

É o primeiro 27 de janeiro sem essa explosão de cores e emoções.

A saudade fica. As melhores lembranças também.