Não mexe comigo que eu não ando só

A vida parece se encher de datas comemorativas, no esforço de lembrar o que parecemos já ter esquecido. De ano em ano, somam-se dias especiais, dedicados ao completamente essencial que sob tantos holofotes, torna-se supérfluo. Como o Dia dos Namorados que surge para agitar um mês fraco em compras e se estabelece como parte do calendário oficial de um país, esquecemos e confundimos dias santos, nossos deuses são outros.

O mês de julho também é um mês modesto de dias e foi justamente nele que resolveram homenagear a avó. Aquela que com tantos mimos e doces presenteia os netos todos os dias.

É fácil falar de vó e cair em clichês, a vó e o amor suave, a vó e a vida sem regras, a nostalgia de bolinhos de chuva da Dona Benta que sequer provamos. Os clichês chegam e existem porque a gente precisa deles, porque quando não memórias o suficiente, as criamos e as construções coletivas são mais fortes que nós.

Tenho a sorte de ter mais memórias com a minha vó que uma criança normal teria. Lembranças com gosto bom de doce de banana ou o amargo do mastruz com leite nas crises de tosse. Cheiro de perfume forte- afinal, fica a dica para todxs: se não sou bonita, nem gostosa, tenho que ser cheirosa!-, o barulho da ladainha e das rezas às 5:30, a banana frita com canela e o cuscuz com tripinha não importasse o horário. As tabuadas e cadernos de verbo, os ditados, cada uma das arguições premiadas com baldes de pipoca com leite condensado.

É difícil pensar na minha vida e personalidade sem a autenticidade e presença da minha vó, mais difícil é pensar em um dia só que caibam todas essas memórias.

Quando faltam assuntos e sobram memórias, sempre a ela posso recorrer. Como em uma viagem meio longa, com pessoas meio intelectuais, meio conhecidas. Elas falavam de religião e a alienação que vem com elas. Concordo em muitos aspectos dos danos religiosos, sobretudo, os institucionais, mas nessa hora lembrei de Caetano Veloso e de minha vó, exatamente nessa ordem.

Lembrei da música Recôncavo e das novenas de Dona Canô, lembrei que eu tinha a minha própria Dona Canô, no caso Dona Té, que me ensinou o realismo fantástico da fé no invisível.

Não é sobre a fé em Deus que as novenas e a catequese da minha infância me ensinaram, é sobre saber que existem anjos. A fé no amor e no atemporal, na memória e no carinho.

Eu vi Deus, fazendo novena e rezando em mim pra tirar mal olhado. Com cheiro de arruda, cinzas na testa depois do Carnaval e missa no domingo de manhã.

Era uma mulher, forte e alegre. Era minha em cada detalhe de sua plenitude.

Desde então tenho certeza que não ando só.

Juliana Barreto Tavares

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Sonho e escrevo em letras grandes

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