Nathalie, risoto e vinho

Foi em um bar, por volta das 10 da manhã, pelas redondezas de Perdizes que ouvi pela primeira vez essa história. Ainda em 2008 e com uma vida pacata e introvertida, estar naquele lugar já era uma transgressão e tanto para os meus padrões. Ainda que eu não bebesse, ainda que eu estivesse preocupada com o horário de voltar para aula. Mudar cenários, conhecer pessoas, falar de devaneios. Tudo isso continha uma quebra de costumes com a qual eu não estava acostumada.

Nessa mesa de bar, procurava aflita pessoas que topassem voltar comigo pra faculdade, sabendo que aquilo quebraria todo o decoro do parecer cool, daquela necessidade de ser aceito e de se provar que todo mundo com 18 anos já viveu.

Já tinha feito meu grupo, já havia reconhecido as almas inquietas por conhecimento que disfarçavam bem esse lado naquela mesa de bar. Ainda assim, havia uma menina nova, que não era exatamente do meu grupo.

Por algum motivo, achei que ela era uma amiga de amigos e que frequentava as nossas aulas porque era louca ( vai saber!) e – como sempre- preferi criar uma teoria conspiratória qualquer ao invés de ver o óbvio, que ela estudava comigo.

Naquele dia, voltando pra faculdade, ela começou a contar uma história maluca que tinha vivido um ano antes envolvendo risoto e vinho. Uma história envolvendo sabores que ainda não conhecia. Eu ainda tava na fase do miojo e aquela menina já tinha uma vida antes da faculdade, aquilo não poderia ser normal.

Superado o meu choque inicial, falei: eu preciso escrever um livro sobre isso. Ela assentiu e naquele dia mesmo começamos a confabular maneiras de contar tantas aventuras.

Eu sempre farejei uma boa história e não podia deixar ver uma escapar ali na minha frente. Uma história de atitude, rompantes e uma personalidade cheia de pontos tão contraditórios quanto complementares.

A história do risoto e do vinho fica pra outra hora, em um registro mais literário e menos confessional. A presença forte e intensa, a determinação e a garra, a dura poesia concreta dessa amiga que é quase a representação da mulher paulistana. Isso cabe hoje, ou melhor, não cabe, transborda.