Non ducor, duco!

São Paulo não percebe, como costuma ser comum entre os poderosos , mas às vezes parece um pouco imperialista dentro do seu próprio país. A noção de centro do mundo, a “ausência” de sotaque, a locomotiva do país e a pose de maior capital financeira da América Latina para mim só evidenciam os complexos tupiniquins dessa ex-colônia com ambições bandeirantes. Como Paulo Freire disse melhor do que eu jamais diria: “quando a educação não é libertadora, o sonho do oprimido é se tornar opressor”.

O texto, entretanto, não é sobre regionalismos ou sobre os complexos meandros da dominação. É sobre o que é sempre maior que isso, os afetos e as conexões verdadeiras.

Uma das minhas melhores amigas me mostrou orgulhosa a tatuagem com esses dizeres: “ Non ducor, duco”, ao qual respondi, sem o menor pudor.

Nossa, que coisa mais integralista anauê!

Com a sinceridade que me é característica e que me faz passar vergonhas diárias, eu talvez tenha sido ofensiva. Não por emitir minha opinião sobre uma tatuagem que é o tipo de coisa sobre a qual não se fala. Se já é falta de educação comentar do cabelo de alguém, sendo que ele vai crescer dentro de alguns meses, o que dizer de uma coisa eterna cravada na pele.

Fui ofensiva não pelo sincericídio de todos os dias, mas pela falta de compreensão e interpretação de texto. A Dani realmente não se deixa conduzir, ela conduz.

Com uma personalidade meio Mônica jogando coelhinhos imaginários em caras folgados na vida e meio Hermione corrigindo quem não sabe sem o menor pudor, a Dani quebra esteriótipos e reforça outros. Sim, faz e acontece, ao mesmo tempo que personifica as poesia de Caetano com a sua deselegância discreta.

Tatuar o lema de São Paulo lhe cai bem porque encantos não se fazem só com a voz e o doce balanço do mar. A beleza e a doçura pode vir em consoantes marcadas e frases rápidas, em um beijo só pra não perder tempo,em errar a concordância nominal por somar mais do que a vida consegue dar conta.

A Dani não é a São Paulo cinza que quem não conhece descolore. É a cidade viva e cosmopolita, é a mistura de culturas, é a sede de vida, é a pressa pela felicidade. São muitas vidas em uma só.

Fico feliz que esse comentário deselegante da minha parte tenha sido ignorado, não por bondade, mas por indiferença. A Dani simplesmente não liga. No caso não liga para opinião dos outros, porque tem pouca vida para se importar com o pequeno. Liga para arranjos inclusivos de poder, para a mobilidade urbana, para o consumo consciente, para o desenvolvimento sustentável, para uma cidade justa e acessível.

A admiração é grande demais para caber em declarações piegas de aniversário, mas o amor e a amizade estão sempre lá: I’ll be there for you
Cause you’re there for me too