O meu pedaço água

A filosofia é a ciência da sabedoria, estuda mais porquês e causas do que respostas e consequências. Fala de essência e de motivo, fala do imensurável, da dúvida que não contempla exatidão.

Entendo pouco de filosofia e menos ainda de sabedoria, aprendo no erro e na marra, leio histórias pelo prazer da narrativa, decoro enredos e deleto aprendizados. Em resumo, sei pouco.

Mas como sabedoria e conhecimento são distintos, como toda a vida parece funcionar segundo um sistema de feedback negativo, criando compensações, equilibrando pela falta. Por motivos biológicos, filosóficos e meramente (auto) teóricos, neutralizo a ignorância com a memória. Dispenso o que verdadeiramente importa e me apego a conceitos básicos de filosofia. Suficientemente avulsos para fazer um intelectual se contorcer de dor, pretensamente eruditos para elaborar hipóteses.

Lembro de, nas aulas da escola e mais tarde na faculdade, aprender sobre pré-socráticos, confundir com teoremas da matemática, querer chegar logo a Platão e seus banquetes e terminar sabendo mais nomes e dados históricos e continuar ignorante de mim mesma.

Lembro do arché de todas as coisas e como parecia lógico pensar em um elemento fundamental, o intangível e inclassificável que habitava tudo. O nosso sopro de vida, a razão da insignificante existência que insistimos em ter.

Não sei ao certo se sou fogo que explode e se inflama ou se sou terra que segura e acalma. Quase sempre me arrisco não a flutuar no ar, que não sou ouso ser mais leve que o tempo, mas a me confundir com ele, explorar outros mundos e outros cosmos, habitar outros climas e outros povos.

Ainda assim, apesar da incoerência com previsões astrais, apesar da dureza que debilmente disfarço em palavras doces e sorrisos afáveis, encontro minha natureza na água. O meu arché que me renasce e me afoga, a fonte da vida e do choro, a saliva dos deuses que guardo em mim.

A água é indecisa, mas persiste. Me contorna com ondas suaves, mas me derruba quando me desarmo. Me acaricia com correntezas, me nina com chuva suave, abranda o calor externo que me agride, mas me inunda por dentro em lágrimas sem fim.

A água é o eterno retorno da minha construção filosófica sem grandes embasamentos teóricos, é o incontornável destino que escolhi para mim. Há sempre escolhas, me decidiram refém.

Nado no rio do meu passado e lembro do mar que me ensinou o valor do sonho com seres mágicos e da praticidade de saber nadar. Olho pro mangue que margeia todos os retratos da minha memória e percebo que a terra em que coloco minhas bases, afunda. É lodo e fede, mal respira. Não é definição própria, transita.

O meu ar é nuvem de chuva formada, a minha terra é fértil e irrigada, o meu Sol é tímido, mas acalenta. Sem perceber de mim ou de filosofia, percebo da natureza que se confunde em estados da matéria, dos elementos que esquecem da química e se misturam em impossíveis combinações físicas, de ser mais que um corpo ocupando um lugar no espaço. Ser matéria transitória, substância em transformação contínua. Ser estado e não eterno.

Aceitar o estar como verbo complementar do ser.