O prazer do familiar

A primeira vez, o primeiro toque, o primeiro amor. O contato com o desconhecido é o convite a possibilidades, é a beleza do inexplorado. A novidade alimenta o desejo, cria coragens e ritos, engole medos e angústias. Traz o entusiasmo que a rotina arrasta aos poucos.

Não se enfrentaria mares e seus monstros se não houvesse a promessa de novas terras e novos povos. Não se salgaria o mar com lágrimas de saudade se o desconhecido não estivesse à espera, pronto para ser desvendado.

O prazer da aventura é que ela nos permite nos reinventar, nos permite o recomeço, o anonimato e a beleza de expressar os mil lados que escondemos.

Com todo esse charme, com todo esse canto, ainda assim, o que amamos mesmo é o conhecido.

Aquilo que dominamos e esmiuçamos cria o conforto do à vontade, cria o lugar em que nos reconhecemos.

Temos amigos de infância mais porque os conhecemos em suas contradições, do que porque realmente nos identificamos com eles. Livros julgados como ruins são vendidos aos milhões porque normalmente sabemos como eles terminam. Os filmes com dublagens duvidosas e sonoplastia de baixo orçamento nos trazem para um espaço tranquilo da memória.

O poder do familiar é que no conhecido habita o amor. Amamos aquilo que sabemos, respeitamos aquilo que nos respeita.

Eu não tomo refrigerante, por exemplo, mas sempre que viajo peço Guaraná quando é uma opção. Não compro porque é bom, mas amo porque o conheço.

O romantismo e o desejo nos guiam para a busca do novo. A aventura e o crescimento estão no campo do desconhecido, a famigerada zona de conforto.

Tudo isso nos impulsiona.

Mas o amor, o amor está no aconchego do lugar comum. Está no conforto do conhecido. É o prazerdo familiar.