O que é mais importante que o seu mais

Sou apaixonada pela Língua Portuguesa, quem me conhece, sabe. Da cadência e melodia, das nuances e poesia. Com as palavras só suas, capazes de expressar sentimentos tão meus. Cada tritongo, ditongo e hiato, anasalado, com tils e cedilhas. Ãos e inhos, à medida.

Engraçado que essa paixão sempre se mostrou maior pela sua expressão, do que pela sua estrutura. Isso se nota pela diferença abismal entre as notas em Redação ou Literatura em comparação às notas em Português. Enquanto nas primeiras estava sempre rodeando o 10, na segunda muitas vezes um 7 mediano me bastava.

A gramática nunca me foi charmosa, porque para mim pouco adiantava saber das orações subordinadas adverbiais, quando o que me intrigava era a circunstância, naõ a estrutura. Com o tempo e com professores tão bons como alguém pode ter (Obrigada, Marlon, pelos cadernos mais completos que gramáticas. Obrigada, Vânia, por fazer análises sintáticas parecerem algo simples) aprendi a descomplicar e comecei a brincar com tempos e modos verbais, como quem brincava com velhos amigos, com a intimidade de quem os conhecia.

Ainda assim, nunca imaginei que essa intimidade conquistada com listas exaustivas de regência verbal, com regras de acentuação para oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas (que olha só, são todas proparoxítonas e por isso acentuam-se obrigatoriamente) iria me tornar alguém mais fechada. Nunca achei que a língua que me abriu para novos mundos, conseguiria me fechar para tantos outros.

Minha educação foi bem lúdica e sinto muito por você que não aprendeu sobre dissolução da URSS simulando julgamente do Stalin, que não aprendeu sobre frações com enigmas em livros de mistério, que não aprendeu Português com músicas e teatro.

É claro que existiam as regras básicas para se decorar, mais substitui por menos e mas substitui por porém. Mas eu aprendi mesmo as conjunções adversativas cantando: Maaas, porém, contudo, todavia, entretanto, no entanto (Juro que quando procuro por um sinônimo, ainda vem essa melodia na minha cabeça). Aprendi também os tempos verbais por meio de uma peça de teatro (Obrigada, Arqui. Obrigada, Lilian Rocha) em que o Futuro do Pretérito era um cara que gostava de antiguidades e tinha como irmão o Futuro do Presente que amava eletrônicos e tudo que fosse moderno.

Acontece que essa não é a realidade de muitas pessoas. Acontece que mesmo que ainda seja, alguns simplesmente não aproveitaram ou não se interessaram da mesma forma. Quantas pessoas da mesma escola, do mesmo contexto, do mesmo recorte social, da mesma sala de aula que eu, estavam mais interessados na Mostra de Artes ou Olimpíada de Física do que na Gincana Literária. E como eu, que mesmo com tantas aulas, mal sei desenhar um homem de palitinho, que consigo errar uma conta simples de adição, me dou ao direito de julgar quem não tem o mesmo apreço pelo linguagem que eu? Inclusive eu, que devo cometer tantos erros sem perceber, inclusive eu, que devo ter tantos erros nesse próprio texto.

Em teoria, tudo me parece claro, mas em teoria tudo parece mais claro. Mas se tem uma coisa que aprendi em morfologia e sintaxe é que não há regra sem exceção. E eu, que me julgava tão tranquila para tantas coisas. Logo eu, que sempre julguei tanto julgamentos. Eu julguei alguém que não sabia a diferença entre mas e mais.

A cada palavra mal empregada, a cada frase mal construída,o meu interesse ruía, a minha percepção de mim mesma como alguém cruel crescia. A mesma língua que fez eu me sentir em casa em Angola, Moçambique ou Portugal, foi capaz de fazer eu me sentir estrangeira de mim mesma, vítima de ser algoz dos mesmos preconceitos que eu tanto condeno.

É claro que não foi só isso, houve erros mais graves de expressão do que estrutura. Acredito que nem um Professor Pasquale seria tão rígido em condenar alguém pela escrita. Mas seria hipócrita dizer que aquele “mais” que tão mais vezes era usado não contou de nenhuma forma para o meu julgamento.

Aprendi em aulas de Linguística que a isso se chama Preconceito Linguístico. Aprendi na prática que a língua, por vezes tão libertadora, às vezes nos aprisiona.

É difícil se expressar com tantas variantes. É difícil se entender com tantas nuances.

Mas para isso serve a língua que tanto amo, para escancarar as contradições de nós mesmos. Para mostrar que mesmo sem concordância e sem regência, mesmo confundindo classes gramaticais, ela serve para falar.

Para falar e dizer todos os seus períodos e classificações.

Para mostrar o seu lado mais feio. Expor seus privilégios e desigualdades.

Ser uma língua que se pretende viva, mas que se deixa sucumbir por detalhes tão pequenos.

Pelo mais que quer dizer mas. Por uma adversidade que acaba por ser intensidade.

O que é o contrário afinal? Não é o intenso que queremos não ver?