Os Deuses da Chuva Festejam

Na ausência do salgado do mar, a cidade nos brinda com o doce — nesse caso ácido — da chuva nas tardes quentes de verão.

Uma água que não vem no convite do mergulho, mas na intromissão da enchente . Avassaladora. O sal chega pelo suor que rega os áridos campos de concreto e que cria frutos cada vez mais fortes, cada vez mais tortos.

Em meio a pombos mutantes e assustadores (como nunca vistos em outro lugar), as pessoas correm e se escondem da chuva. Aglomeram-se em restos de telhado, sobem para o alto, fogem das montanhas.

A cidade que nunca para, curva-se diante dos deuses da natureza e aceita o poder implacável dos ciclos. Engole molhado que também é feita de água, que há também uma natureza indomável e rebelde, ainda que disfarce com concreto em cima dos rios que cruzam por ela.

Do rio que fundou a cidade, ao rio que serviu de caminho para os bandeirantes que de lá saíram, a água está presente indiretamente no mito fundador da potência. Ainda que disfarce, ainda que não seja com montanhas verdes, ainda que não haja mar, ainda que toda cinza. A cidade é mais natureza do que selva de pedra.

As variações extremas de temperatura, as chuvas descompensadas, o frio que congela a alma, o cinza do céu e das ruas que desanima de viver. Aquele amor bandido, aquele relacionamento abusivo que está sempre exigindo mais de você. Aquelas águas que levam mais que o verão, levam toda a pressa e ambição para um outro lugar.

São Paulo não é um amor fácil, mas nada nessa vida é. São Paulo só tem um jeito mais enérgico de mostrar suas contradições.

Assim como a chuva que tudo arrasta, a cidade te invade e te domina.

Na mesma intensidade que te desanima, a cidade brinda com um novo vigor.

A cada pancada de água, uma nova chance.

O eterno poder dos ciclos, que sempre passam.

Ainda que de um jeito mais discreto e contido. A cidade tem sua própria forma de mostrar que está de braços abertos.

Todo mundo é bem-vindo.

Só não esqueça do guarda-chuva, do casaco e também de trazer uma roupa de verão.

O segredo é sempre o preparo. Não há lugar para iniciantes.

Feliz 463 anos!!!