Quando comecei a crescer

Esse é o título de um livro da Ruth Rocha, que foi leitura obrigatória na época da escola, lá pela primeira série. Contava a história de uma menina que pede ao Papai Noel uma bicicleta de presente de Natal e acaba descobrindo, por esperteza ou bisbilhotice, que — SPOILER ALERT! — quem comprava os presentes eram os pais e Papai Noel não existia.

Sei que aos 7 anos já é comum que as crianças não acreditem mais em Papai Noel e que sempre fui um pouco apegada às minhas ilusões. Lembro que questionei minha mãe, que usou da melhor estratégia em questões controversas: “só existe se você acreditar”.

Ao contrário da protagonista da história, eu não sentia vergonha por ter acreditado por tanto tempo. Sentia era inveja de quem acreditava sem questionar, de quem ainda guardava aquela esperança cega inabalável, de quem preferia olhar para o céu e buscar vestígios de um velhinho do Polo Norte que milagrosamente não sente calor no verão brasileiro, de quem acreditava com o coração e não com a cabeça. Acho que mesmo criança, sentia sempre com a cabeça.

O livro existe e se justifica como forma de ajudar as crianças a superarem a passagem da primeira infância (seja lá o que isso signifique) e lidar com o delírio das coisas reais. Não sou educadora e, portanto, não tenho propriedade para falar do que é melhor ou pior na formação de uma criança. Apenas me limito a experiência pessoal, que é o reducionismo mais utilizado quando não entendemos ou dominamos um assunto.

O ensinamento desse livro pouco me serviu, acreditamos no que acreditamos porque gostamos de acreditar, não porque nos mostram evidências claras disso. Ao tentar se esquivar da verdade, minha mãe mostrou a mais verdadeira delas: se acreditamos é real.

Da mesma forma que Papais Noel se materializam na mente de uma criança e que também podemos sentir a ofegante respiração de um monstro embaixo da cama, vamos recriando amigos imaginários, ressignificando a esperança e o medo em outras roupagens. Vamos crescendo, que é como dizer, vamos mudando. Mantendo a essência e redescobrindo instrumentos mais refinados para os mesmos instintos base.

O que é crescer?

A tirinha mais triste do mundo

Crescemos de formas diferentes, mas sempre constantes. Há primeiramente o crescimento físico, inquestionável, que com ajuda hormonal ou não, nos faz ver ano a ano no que mudamos. Mudamos de tamanho, de roupa, de série. Simplesmente não cabemos e para cada nova roupagem, uma nova versão. O crescimento a olho nu do silencioso trabalho de pequenas células que nascem e morrem de forma rápida e sincronizada, que formam a nós.

Há também o crescer do amadurecimento, o crescer de quem não pode mais chorar toda vez que lhe arrancam o doce. O crescer da paciência dentro de nós e da compreensão no olhar do outro. O crescer de boas maneiras, de mastigar com a boca fechada e não interromper o outro antes de falar. Se tornar mulher ou homem, agir como tal.

Esses cresceres, por mais que nos roubem o encanto -no primeiro caso também a fofura-, não nos rouba de nós. Ser educado nos torna palatáveis, não nos torna menos nós. Sentamos à mesa sem os cotovelos apoiados, mas podemos falar as mesmas coisas, ainda seremos nós, só seremos maiores.

A questão é que os cresceres não chegam sozinhos, eles andam acompanhados. Quando aprendemos a calar e engolir o choro, sem perceber, engolimos também os sonhos. Abaixamos a voz que nos alerta do dragão na próxima esquina e colocamos as responsabilidade à frente de nossa diversão. Desaprendemos o valor do brinquedo, o prazer da brincadeira, a molequice de perder noção do tempo.

Acontece que essa obsessão em crescer ou a fuga dela como acontece em quem já perdeu a hora faz tempo (oi, prazer!) nem sempre diz respeito ao bom cumprimento das normais sociais, ela diz respeito à morte diária das fadas que abandonamos ao sair da Terra do Nunca.

Crescer é só um ciclo e como eu já sei desde criança: só é verdade se eu acreditar.