Um sentimento latino-americano

Integrações regionais não são o meu forte. Não pela liberdade de ir e vir e se reconhecer além-fronteiras, nesse não-espaço, me habito.Discursos de conflito que se defendem na integração que me incomodam. Se não quero me conter por um limite imposto por alguém, não são as fronteiras geográficas que farei de forte para me proteger do que condeno.

Por isso e por motivos de um coração pouco regionalista, nunca me reconheci exatamente como latino-americana. Mesmo reconhecendo as dores do tango, mesmo mexendo incontrolavelmente com reggaeton, mesmo me vendo representada em cada papel coadjuvante em filmes de Hollywood, mesmo entendendo todo o sistema descrito por Galeano. Era uma identidade que não vestia.

Conheci Calle 13 um pouco depois de formar essa opinião e fui obrigada a mudar, como muitas outras vezes fui obrigada a me contradizer, a desdizer ou refazer ideias e teias. Obrigações cotidianas de me reconstruir.

Soy américa Latina, un pueblo sin piernas, pero que camina

Não conseguir desviar da força dessa frase, não consegui me indagar sobre o meu espírito de choro, de sangue e de América do Sul. Encontrar e identificar padrões, de cultura, de história e de identidade em países vizinhos. Porque quando a razão nos falha é a arte que nos salva.

O que todo manifesto procura ao conclamar multidões é fazer com que esses rostos anônimos se reconheçam, que se vejam e se percebam no outro. Mais forte do que qualquer artimanha política, cultural ou social que consiga cativar e capitalizar milhões, é quando a identificação é espontânea, quando ela simplesmente acontece.

O reconhecimento no outro pode vir de muitas formas, mas quando acontece e verdadeiramente acontece normalmente é no conjunto de várias coisas. No gosto parecido, nos valores, na fala e no olhar.

Eu me reconheci verdadeiramente latina quando me refleti e, na duplicada de um espelho, vi o melhor de mim.

Precisei encontrar uma irmã perdida em outra parte do continente para me saber mais eu, para me saber menos individual, para distinguir um coletivo.

Essa irmã refletida em forma de Luz traz as mesmas roupas, veste a mesma pele e carrega um pedaço de coração mole, mas jamais fraco. A fortaleza nem sempre vem da rigidez de rochas, ela pode ser maleável como uma energia transeunte.

A força quase sempre é Luz.

Juliana Barreto Tavares

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Sonho e escrevo em letras grandes

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