Vamos brincar?

Uma criança nunca fica sozinha muito tempo. Mesmo as mais tímidas, como me recordo que eu mesma fui, sempre dão um jeito de se aproximar, de rondar um outro igual e de, com o olhar ou com palavras, dizer de forma direta e prática:

— Você quer brincar?

A aproximação pode surgir com um brinquedo, uma bola embaixo do braço ou mesmo de mãos livres e coração aberto. Você chega em um parque público, no playground de um condomínio, na praia ou até num ponto de ônibus e reconhece um par. Reconhece alguém que pode te ver e te ouvir, alguém que valha à pena passar aqueles momentos tão desinteressantes fazendo a única coisa que importa para aquelas curtas existências de vida: brincar.

Quando alguém não leva algo muito a sério, se costuma dizer que a pessoa está brincando. Essa é a apropriação mais imprecisa da qual já ouvi falar. Se a gente fizesse as coisas com metade da seriedade que uma criança brinca, não teríamos tantos projetos abandonados, tantas emoções represadas, tanta procrastinação em tarefas simples. Brincar foi sem dúvida o nosso maior feito.

Pelo simples desejo de brincar, crianças quebram regras, desafiam leis de gravidade, falam com estranhos, se entregam de corpo e alma por alguns minutos de diversão genuína. Elas fazem o que buscamos fazer por meio de tutorias guiados da internet, o que lemos desesperadamente em livros de autoajuda, o que arrumamos em um discurso bonito para convencer a nós e aos outros.

Elas apenas se inspiram diretamente na vida, enquanto nós buscamos uma sombra imprecisa do que projetamos ser a vida. Seja na arte, no vapor barato dos amores que juramos eternos, nas drogas que nos conectam com esse momento de nós mesmos que é apenas ser.

A brincadeira é algo tão simples e tão belo que perdemos em troca de um acumulado de códigos sociais, para pertencer a um jogo que nem lembramos porque entramos, para simplesmente parecer, enquanto esquecemos a beleza simples do ser.

Vamos aos poucos desaprendendo aquilo que sempre soubemos: como ficar tontos sozinhos, como cair e levantar disfarçando o choro, como ter vontade de fazer algo e apenas perguntar pra pessoa do lado se ela quer o mesmo. É tão simples que nos confundimos.

Às vezes o que nos falta é uma pergunta simples, uma coragem louca, uma visão um pouco mais atenta. Talvez não seja a magia que tenha morrido e as fadas e sereias que deixaram de existir. O que mudou é que não brincamos mais entre árvores, não temos paciência para amigos imaginários e preferimos confiar nas vozes internas que nos amedrontam. Nossa fantasia mudou, mas continuamos tão frágeis como antes.

Ainda brigamos por inveja, ainda fazemos birra por atenção, ainda nos ferimos quando não somos chamados para a brincadeira. Mudou o código, mudou a postura, mas essência tá lá.

Se em todos os problemas continuamos crianças, porque não podemos ser na solução deles?

Olhar pro lado, disfarçar a vergonha e perguntar simplesmente:

— Vamos brincar?!