Não ser para ser. Uma questão de ego [irresolvível]

Quem bem me conhece sabe que vivo com caraminholas na cabeça. Minhas caraminholas são das mais variadas espécies. E a grande maioria delas acaba se voltando contra mim no fim do dia — ou na madrugada.

Essa, posso dizer, é a minha caraminhola de estimação. Eu quero ser e fazer, mas não quero dizer que faço nem alardear meu ciclo próximo de amigos virtuais — e mesmo reais — sobre o que estou fazendo. Sei, é algo muito difícil em tempos de modernidade líquida não é mesmo?! Outro dia mesmo, lia uma revista da Joyce Pascowitch com entrevista de Cauã Reymond que, por sua vez, dizia ser da época na qual não precisava dizer o que pensava, onde estava ou por qual causa batalhava. As pessoas se encarregavam de perguntar e descobrir. Mas isso mudou. E até Cauã precisa ser mais ativo em seu Instagram.

Boa era a época que podíamos ser sem ter que anunciar à todos. Eu podia correr sem todos saberem que corro. Eu podia lutar pelos animais sem ter que jogar aos 4 ventos os meus atos. Mas hoje é complicado. Nos causa um vazio. Por mais que você faça e seja, se você não está contando por aí via um celular qualquer, parece que você não está nem perto de onde deveria estar (eu já me peguei sentindo isso diversas vezes—call me crazy, biacth).

Por mais que façamos no nosso mundo, o nosso mundo ficou pequeno. Se você não tem uma presença além, as pessoas, por vezes, já nem querem saber. Em contrapartida, se você fala demais parece aquela história da síndrome do impostor sabe?!

Assim como Cauã, sou da época que acha bacana aquele que faz apenas por fazer, sem precisar angariar mais de 100 mil seguidores e passar seus dias dizendo o que faz. Entendo, hoje é muito mais fácil influenciar pessoas e trazê-las para o time de "muda mundos" através das redes. Bem como ganhar notoriedade, status e muitas vezes retorno financeiro. Mas a narração de vidas online me causa angústia. É misto de alegria e rua sem saída. Alegria por ver um momento humano cada vez mais bacana, mas também de sufocamento. Não sei se pelo espetacular trabalho dos algoritmos que martelam sempre a mesma coisa na minha cabeça ou pelo fato de o mundo estar mudando mesmo.

Contudo, volto na questão do ego. Uma questão que já foi tema de um paper para meu mestrado, lá em 2014, quando comecei na busca por respostas nas relações de consumo e mudanças climáticas, quando, numa epifania de redes sociais e carência de líderes acabei com um paper sobre Gabriela Pugliesi e sua legião de seguidores — ávidos por referências, num país de cultura um pouco em falta.

Anos passaram, papers rolaram e pensamentos mudaram. Mas ainda acredito haver um estranho balanço nessas influências tão digitais. Até onde vai a vontade de fazer mais e o ego de quem ali vos fala? Acredito estar aí meu eterno dilema de não querer ultrapassar essa barreira. Se tornam todos reféns de seus algortimos, de seus egos e de suas profecias "mais verdadeiras do universo das galáxias".

Eu queria ser alguém que fala por aí com propriedade e com repertório. Acredito ter ambos. Mas meu ego não me permite — ou a falta dele, não sei bem. O mundo é muito maior que isso. E é só eu sair do meu ciclo e dos meus algoritmos e correr até a 25 de março para fazer uma comprinha para uma festa sem plástico que vejo a desproporção das nossas ideias, ideais e egos.

Afinal, a cada item reutilizável que comprava eu ganhava uma sacola plástica com lacre, plástico, para recusar. Aquelas pessoas que me ofereciam ambos, sacola e lacre, não têm muito tempo parapensar o porque da minha recusa. Afinal, tempo para pensar é um privilégio que poucos têm nos dias de hoje. E além de eu dispor desse privilégio, meu mundo particular dos algortimos me mostra, sem descanso, a saga dos animais em meio aos microplásticos despejados no nosso meio ambiente — desde antes de eu mesma nascer e construir um ego tão complicado de se entender e dispormos de um mundo tão poluído de se viver.

Educar aqueles menos privilegiados ou influenciar meu mundo particular? Uma questão de ego.

Ps. esse texto/desabafo com certeza nem educa, nem influência. Foi mais uma questão de ego mesmo.