Sobre o abandono
Às pessoas vão te abandonar. Uma hora ou outra, sem aviso prévio, sem ordem de despejo, elas vão simplesmente partir. Isso porque o ser humano é líquido, fluídico, efêmero. Triste. Talvez até mais nômade ensimesmado do que propriamente triste; um pouco cabisbaixo, ouso dizer.
Mas a culpa do abandono não é do abandonado, nem de quem pratica o ato. É da vida propriamente dita, que não dá prazos finais mas deixa claro que o fim sempre vem. Chega inexorável, varrendo o interior e trazendo mudanças.
O que se teme, como ser humano, é não o abandono como conceito, mas a mudança em si. E é justamente por ela que as pessoas vem, ensinam e aprendem algo e partem para outras vidas, para outros ensinares e aprenderes.
Não culpe, portanto, o sujeito pela partida: nos anos que se passaram, você veio e foi várias vezes; na mesma medida em que se despediu daqueles que seguiam em frente, fez sua parte nesse contrato cósmico e, sem perceber, também partiu.
Deixou alguns corações solitos pelo caminho. Faz parte.