Terça-feira

Juliana Costa
Aug 9, 2017 · 1 min read

18:29
Os colegas dizem: “Ta na hora”.
Eu passo por trás de um deles, empurrando sem querer, e ando rápido pelo corredor, rumo ao banheiro.

18:30
A hora que a aula começa.

18:31
18:32
18:34
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18:36
18:38
18:39
Eu, sentada sob o vaso sanitário, chorando copiosamente e tentando me acalmar pra entrar em sala.
Lavo e seco o rosto. Me olho no espelho. Respiro. Suspiro.

18:45
Entro em sala de cabeça baixa, dou boa noite, peço desculpa, coloco os óculos pra disfarçar a cara inchada.
Eu sou a professora.

Nos primeiros 20 minutos sorrio pros alunos, respondo perguntas, voz tranquila, tom simpático.
Mas a todo instante pensando em sair correndo da sala e implorar pelamor pra me deixarem ir pra casa e alguém me substituir.
Penso no dinheiro.
Penso que os alunos não têm culpa.
Penso “E se eu desmaiasse? Teriam que me socorrer e me levar embora né?”.
Penso no dinheiro.
Me conformo.

Recebo mensagem de um amigo dizendo que está sempre por perto por mim.

20:10
A hora que a aula termina.

“Sobrevivi”.

E no piloto automático faço o que deveria fazer, começo o trajeto pra casa, atravesso a rua correndo na frente de uma moto, choro no ônibus, expressão de zumbi. Tento fingir pra família que não é nada.

Vejo o trailer de “Como Nossos Pais” e me identifico com a Maria Ribeiro: “Eu to cansada de fingir que sou uma mulher que dá conta de tudo. Eu não dou conta de tudo!”

(Escrito em 12/07/2017)