Amar go ego

Essa noite sonhei com Manoel de Barros.

Acho que porque muito sábia eu me sentia.

Eu lhe falava dos amores que tive

E do que me acompanha, carregado, no dia a dia.

No sonho ele era meu parente

e disse adeus com profunda tristeza e maestria.

Mas antes, deixou-me um poema

Que rimava (no sonho eu não saberia).

- Um poema, feito todo pra mim, Manoel? Só pode chamar-se Sabedoria. Ah, era isso mesmo o que eu queria.

Da minha loucura ele ria.

- Nesse momento, Juliana, onde a essência da vida dá sinais, seu ego e sua barriga devem ser Inversamente proporcionais.

(Mas que pretensão achar que sei, justo pelo mestre dos comuns grandes avessos e das simples fantásticas aversões. Ele preferiu, por bem, no poema, chamar inventos de sentimentos e os versos de inversões).

De Barros não sabia – e não sabia muito bem! – que a maior das insabedorias

(e até mencionava as vantagens e as vertigens)

É carregar em si uma criança

E deixou-me o poema no meio da noite

Intitulado

Ignor ânsia.

Ingênua que sou

Fiquei triste

Mas respirei, virei e me quietei.

Assustei-me com seu dedo em riste

A lágrima da dor foi tão sábia

Com o amargo gosto salgado

acordei:

- É melhor ficar conformada. – ele dizia -com a maior das mestrialidades, ainda maior do que o poder de um rei.

É que agora, finalmente, eu sou nada.

Agora, finalmente, eu não sei.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.