O que eu aprendi sobre o amor com os moradores de rua

No último mês passei a dedicar uma noite na semana para levar alimento e conversar com pessoas que estão morando nas ruas. Há mais de 15 anos realizo trabalhos voluntários regularmente. Aprendi na escola, com um querido professor, que trabalho voluntário não é para ser feito quando não temos mais nada pra fazer, é um compromisso, precisamos marcar dia e hora sempre.

A verdade é que quando doamos nosso tempo a alguém, percebemos que não damos nada, apenas recebemos. É um clichê, eu sei, mas é a pura verdade. Os momentos mais tristes que já vivi foram superados com o voluntariado e o carinho das pessoas que, supostamente, ajudamos.

Ao longo desse tempo já me dediquei a escolas, asilos, creches, famílias carentes e comunidades. As ruas ainda eram um ambiente completamente novo pra mim.

Na minha simples visão, quem mora na rua está lá basicamente por um motivo: não ter dinheiro para morar em uma casa. Obviamente ninguém estaria na rua por opção. E foi aí que começou meu primeiro choque de realidade.

A cada semana encontrei em média 40 pessoas que estão nas ruas. Algumas estão sempre nos mesmos lugares, outras aparecem e desaparecem sem deixar rastros. Conheci apenas 4 mulheres em todas essas visitas.

Os homens são maioria, e a história deles é semelhante. Em Uberlândia, a maioria deles veio de outras cidades e estados. A maioria tinha uma vida estável, ainda que com dificuldades. Muitos tinham empregos e algum tipo de formação.

Na última semana conheci um que perguntou se era possível emprestar meu celular para que, através do Facebook dele, entrasse em contato com a prima que mora em outra cidade. Expliquei que não e ele me passou nome e sobrenome para que depois o encontrássemos na rede.

Ele disse que morava em Londres e, de repente, começou a falar fluentemente inglês, me deixando um tanto quanto espantada. Depois ainda conversou em alemão e espanhol. Procurei os dados dele e descobri que era tudo verdade. Havia fotos não só na Europa, mas também na Argentina.

Durante a conversa descobri que os motivos que o levou a morar na rua é o mesmo de grande parte dos homens que conheci nesse último mês: desilusão amorosa.

Acredite, a maioria das pessoas que conheci estão nas ruas por escolha, por não conseguirem viver mais sem um relacionamento. É difícil ter a rotina de antes quando falta alguém. Um deles foi pras ruas porque a mãe faleceu, o outro perdeu o filho e a maioria viu suas esposas seguirem a vida com outras pessoas. A realidade da separação foi, e é, pra todos eles, insuportável.

Nas ruas eles encontram histórias semelhantes, além de bebidas e drogas que os ajudam a esquecer a vida que tinham até então. Alguns afirmam que foi a única opção para não enlouquecerem, não se matarem e não matarem as companheiras.

Quando chegamos, eles afirmam que conseguir comida não é tão difícil, muita gente ajuda. Mas, conseguir atenção… esse sim é um grande desafio. Os poucos minutos que passamos dando voz e escutando as histórias, os sonhos e medos, são agradecidos por palavras, olhares e até lágrimas.

Todas as terças eu volto pra casa com a sensação de que fiz a minha parte, volto agradecida pela minha casa, minha comida e meu cobertor quentinho. Volto com o coração cheio de tanto amor e carinho que recebi.

O amor é a coisa mais importante do mundo. É uma força tão poderosa que pode reconstruir uma pessoa, mas a falta pode levar outras a seguirem caminhos antes inimagináveis.