Liliana chorando (Cortázar)

Julio Cortázar e o gato Adorno

Daqueles contos que tiram o ar. Notas minha e alguns trechos que pegaram lá no fundo.

Enquanto o corpo moribundo resiste na cama, a mente pulsa uma existência que permanece. Ele sobrevive como ausência ao lado de fora daquele hospital. Mesmo assim, insiste em traçar com caneta e palavras os próprios passos. Cria uma história em que já não é partícipe. E constrói-se mesmo na irremediável e iminente falência da própria vida. Imagina-se como espectador e coloca-se narrador de sua morte.

“E falarão muito de mim, cada um lembrará tantas coisas, a vida que nos foi juntando, os quatro, embora como sempre cheia de vazios, de horas que nem todos compartilhamos e que assomarão à lembrança de Acosta ou de Pincho, tantos anos e brincadeiras e amores, a turma. Vai lhes custar separarem-se depois do almoço, porque então virá a outra coisa, a hora de irem para casa, o último, definitivo enterro.”

Passam-se meses, semanas ou dias, talvez... Linha a linha, vê-se cada vez mais da rotina e menos do luto. A esposa do moribundo e o amigo da família sentam-se juntos no sofá da sala. O beijo dos dois encerra a angústia da morte que demorava a chegar; rondava todos os cômodos, mas que não se consumava. Aquele gesto consentido finda simbolicamente a presença do desfalecido na sala de estar.

“Inútil murmurar coisas tão sabidas, Liliana chorando era o término, a extremidade de onde ia começar outra maneira de viver”

Enquanto isso, no hospital, o médico apalpa o corpo que jaz. O falecimento já era certo, sabido e esperado. Uma questão de tempo, apenas. Mas Ramos checa os pulsos mesmo assim, revira o cadáver: investiga se não restam resquícios de vida naquela carne.

“… um lento, incrédulo reconhecimento a que assisto como de longe, quase divertido, sabendo que não pode ser, que Ramos se engana e que não é verdade, que só era verdade a outra coisa, o prazo que não me havia ocultado, e o riso de Ramos, sua maneira de me apalpar como se não pudesse admiti-lo, sua esperança absurda, isto ninguém vai me acreditar, velho, e eu me esforçando para reconhecer que talvez seja assim, que talvez sabe-se lá, olhando Ramos que se ergue e torna a rir e distribui ordens com uma voz que eu nunca lhe ouvira naquela penumbra e naquela sonolência, tendo de me convencer pouco a pouco que sim, que então vou ter de lhe pedir, logo que a enfermeira vá embora vou ter de lhe pedir que espere um pouco, que espere ao menos que seja dia antes de dizer a Liliana, antes de arrancá-la daquele sono que pela primeira vez não está só, daqueles braços que a apertam enquanto dorme.”

Córtazar, J. Octaedro. Civilização Brasileira. Rio de Janeiro, 2000.

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