Um mergulho na ayahuasca/2

Samantha Keely

Morte e renascimento. Cada vez mais vejo e significo essa experiência assim. Um morrer que pode ser desesperador — principalmente quando foge ao seu poder ególatra de ‘escolhas’ e quando não se quer morrer. É a morte das crenças, a morte do ego, a morte das verdades e das certezas.

um corpo que vaga

Eu morri naquela noite. Deixei de saber quem eu era, de onde vinha, quem eram meus pais, o que eu fazia, como me chamava. Não sabia o que era Deus. Eu não tinha nada, nem ninguém a quem clamar.

A noção de passado, presente e futuro me era inexistente. Eu pedia um copo d’agua a alguém e passavam-se dias até tê-lo em mãos. Não existia ali nenhuma referência de absolutamente nada. Não sabia o que o que era real, espiritual, imaginação, criação mental. O que era luz ou o que eram trevas. O que tinha realmente acontecido — eu já estive nesse lugar, nessa situação? O tempo está se repetindo em um looping eterno?

Em minha falta de confiar e de respirar, entrei em pânico no meio do ritual. Cheguei ao ápice da falta de consciência, em que não reconhecia as palavras emanadas pelos cânticos — eram como uma língua estranha ou como se fossem ruídos deformados e irreconhecíveis. Minha visão ficou turva. Eu não enxergava. Não ouvia com clareza. Tinha enlouquecido.

Durante o transe, tinham momentos (segundos, provavelmente) de lucidez. “Sou a Juliana, está tudo bem. Estou aqui e vou voltar. Dessa vez eu volto”. Repetia a mim mesma antes de ter a consciência sugada por um fluxo de sensações e pensamentos que não compreendia.

O trabalho inteiro para mim durou cerca de oito horas. Nesse estado totalmente fora de mim, devo ter ficado por volta de quatro. O rito foi encerrado, as pessoas foram dormir e eu continuei ali. Ou melhor: totalmente fora dali. Era isso. Todo mundo voltara e eu tinha ficado. Seria assim para sempre.

No meu momento de lucidez que se alternava a loucura, pensei se talvez conseguisse fazer arte naquele estado. Imaginei o que seria possível, já que viveria assim, um pouco fora dessa existência de tudo mundo, dessa em que se contam segundos, minutos e horas, em que se entende o redor e se comunica com ele.

Entrei no vazio, vácuo, umbral, purgatório, sei lá. Era o nada. Nesse espaço-tempo fora de tudo, deixei de existir. Durante uma eternidade o meu corpo se mexeu sem rumo por aí, vagou sem que eu estivesse presente.

Foi o tempo preciso (precioso) para que eu voltasse a mim e nunca mais fosse a mesma. Já era. Não se experimenta a morte assim, como algo com o qual soubéssemos lidar depois.


estilhaços

O processo para a volta a mim foi bonito. Já tinha amanhecido e em algum momento de lucidez naquele não-ser eu decidi que faria de tudo para voltar a esse mundo. Queria viver. Amar, sentir, pensar, me relacionar. Queria poder fazer parte dessa existência de novo. Nisso, os flashs de consciência já duravam um pouco mais do que antes.

Tropeçando em minhas vontades (desobedecidas pelo meus pés), pisando na saia suja de terra e do que restou de mim, fui até o banheiro. “Sou a Juliana. Sou a Juliana”, repetia para aquele rosto que me fitava no reflexo do espelho. Será que um dia acreditaria nisso? Nesses nomes sem significado algum. Tentei, repeti. Me senti um pouco melhor, mas continuava sem saber de quem eram aqueles olhos que me fitavam.

Deitados em um colchão, com os outros participantes do ritual dormindo, perguntei a Dante o que ele gostava em mim. Depois o que eu gostava de fazer. Quem era minha mãe, meu irmão, meu pai. O que eu fazia da vida. Queria lembrar quem era esse ser que habitava o corpo no qual eu estava existindo.

Ele contou com calma sobre meus passeios de bicicleta, o quanto minha mãe era uma pessoa bacana, o quanto a família me amava e outras coisas que bateram em algum lugar profundo do meu peito (mas que não lembro mais). Ao poucos foram se conectando os resquícios de mim.

Lembrei da minha vó, do quanto a amava e do quanto queria ter passado mais tempo com ela antes de sua morte. Depois lembrei daqueles que continuam vivos e do quanto é importante cultivá-los. Aquele calor de pensar em pessoas amadas me aqueceu. Fundiu as rachaduras que o chá deixou em minha alma e psique. Conseguia me movimentar sem sucumbir as partes de mim.


Fiquei área durante todo o dia. Como que uma espectadora da vida, não uma partícipe dela. Mesmo assim, tinha em mim uma sutil felicidade em voltar a Terra, como mais um ser humaninho. Conseguir andar, comer, fazer escolhas ou me comunicar eram de uma beleza reconfortante. É quase o mínimo do ser humano. Mas, mano, que saudades disso.

(continua)