Um mergulho na ayahuasca/1

Samantha Keely

Eu não acho que exista de fato (ou talvez sejam casos pontuais) essa história de a pessoa ‘nunca mais sair da viagem’. É químico, além de espiritual. O efeito passa, o trabalho se encerra. O que pode acontecer é ela voltar e não conseguir se desprender do que viu/sentiu durante a duríssima viagem por si própria.

Pensei nessa analogia: não é como se a pessoa mergulhasse no oceano, fosse agarrada pelas pedras e nunca mais conseguisse voltar para a praia. Ela volta. A questão é como e se ela vai conseguir lidar ou não com o que viu durante o mergulho. Se ela vai ser capaz de pisar na areia e apreciar a vista do mar de novo, ou se a visão que teve embaixo d’água vai ser por demais atormentadora, que ela não consiga pensar em outra coisa se não o que existe debaixo da superfície.

E o mergulho no mar não necessariamente precisa ser a ayahuasca ou qualquer outra substância psicoativa. Pode ser, por exemplo, a morte de alguém. Tem gente que no mergulho se depara com o monstro marinho da morte e o leva, mesmo que moribundo, para a costa. Não consegue se desprender, entender ou lidar com ele.

Uma grande treta da ayahuasca, ao meu ver, é que no mergulho muitas vezes você se depara com o monstro do verdadeiro ser — que é feito de luzes e de sombras. Nesse mergulho tem pessoas que se deparam praticamente só com as sombras. Como foi o meu caso. E ai? Quando você chega na costa, vai pisar na areia carregando o que daquele mergulho? Como você lida com o que descobriu?

Você pode tentar se afogar no oceano por considerar suas sombras por de mais tensas para carregar com você em terra firme. Você pode fugir da praia para nunca mais ver o mar e quem sabe esquecer o que existe dentro dele. Ou você pode tentar, também, procurar por pessoas que já deram mergulhos parecidos com o seu (mesmo que não tenham sido nas mesmas águas). Pode buscar entender porque te assusta tanto aquele ser dos oceanos com o qual se deparou. E agradecer ao mar por ter-lhe mostrado o que mostrou. Pode pedir que ele mesmo te auxilie a lidar com essa visão. A própria água salgada ajuda na cicatrização.

“… Dos medos nascem as coragens; e das dúvidas, as certezas. Os sonhos anunciam outra realidade possível, e os delírios, outra razão. Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quietinha na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia. Nessa fé, fugitiva, eu creio. Para mim, é a única fé digna de confiança, porque é parecida com o bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo.”

Eduardo Galeano. O livro dos Abraços (celebração das contradições/2)

Like what you read? Give Juliana C. a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.