“Pela porta aberta vai entrar a vida”

Juliana Elisa
Nov 4 · 4 min read

Hoje me deu vontade de fazer música. Saí pedalar como há tempos não fazia. A cestinha da bike (virei a pessoa que hoje fala bike e que em 2014 ainda teimava em chamar de bici) tá meio quebrada, a correia precisou de um desengripante. O Guaíba segue lá. A orla também. Incrível, com menos gente em dia de enem, nublado e gre-nal. Surpresas pelo caminho. Ex-olhares encontrados por coincidência. Sorrio. “Quer dizer: relembra”. Reconheço minhas coxas um tanto desnudas. Me orgulho delas e da sensualidade que conquistei e aprendo a admirar a cada dia.

Aquele tronco e gramas mais escondidos antes do Iberê. Lá embaixo, bem perto da água. Onde não vai muita gente mesmo. Aquele pedação de rio. Eu sempre gostei do pôr-do-sol. Quem diria que o céu ia formar a beleza que formou hoje? A gente não controla a natureza. Em um olhar mais atento impossível não se impressionar com as cores, com a pintura no céu, com aquelas nuvens.

Além da previsão do tempo, o celular me informa a hora do pôr-do-sol. E em dias de pedal eu me planejo pra voltar sempre depois dele, pelo menos uma meia hora depois. Eu sempre fui a criança que queria ficar até mais tarde fora de casa. Porque tínhamos que sair do parque perto das 15h? Os adultos ficavam ansiosos para voltar para casa, mesmo que ainda tivesse sol. Aí estava a melancolia do domingo.

No meio do caminho, as lágrimas começaram a escorrer. Elas vêm, por mais memórias doloridas que tenham que acessar. E quando começou a tocar “Coração”, do Gonzaguinha, foi a certeza perfeita. Um dos versos dessa música dá nome a esse texto. A reflexão do caminho até aqui, a reflexão da semana sobre morar em comunidade, a reflexão e a lembrança de tudo que eu já fiz na vida. E se já fiz.

Eu tenho de fazer as pazes com um bocado de pessoas. Mas eu acho que tu brigou pouco pra ficar perto de mim. E eu sinto que eu quero de todo jeito viver e saber de coisas que tu precisa resgatar da tua vida — e que eu não fazia parte há 15 anos. Quero saber da tua amizade com o Guto. E eu sinto que aquela distância que existia no passado segue existindo. Por ser uma tempestade. Por ter aprendido que sim, eu sou difícil de lidar, mas sou eu quem tem que lidar isso. É simplório dizer que não deve-se nunca deixar ninguém dizer que tu é difícil de lidar. Confesso que relendo conversas que tive voltando de uma viagem de trabalho eu, se estivesse conversando comigo, teria me chamado, no mínimo, de destemperada. E tu tens que perder teu tempo pra me conhecer, como diria a Marília Mendonça.

Por outro lado, tem novos olhares se abrindo por aí. porque aquele look saia longa e collant de repente não fique tão mais bonito assim. Vag me diz pra ver elisa paiva. Meu ritural do horóscopo é ver os vídeos da portuguesa apresentada pela Alima sempre nas segundas à noite. Foi ao ouvir “Notícias de Salvador”, a música que sempre me lembra minha comadre e meu afilhado, que bateu. A vontade de fazer música. Tem algumas conexões com o todo que acontecem sem explicação. Vocês já ouviram “Almoço”, do Belchi? É o retrato mais real e mais dolorido dos tristes almoços de famílias que não tem muita conexão entre si. E hoje também preferi ficar com Gonzaguinha, Lenine, Luedji Luna, Chico César, Chico Buarque e Bethânia. Encerrei a reflexão na frente do astro rei ouvindo Iansã. Resgatando força, alegria, história, tambores, ritmo,sopros, coral. Até terça, minha rainha ❤.

Juliana Elisa

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Jornalista em desconstrução. Ar, signos, terapia e música me movem. Dramas sociais me incomodam. Amar e mudar as coisas me interessam mais.

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