Além do Oiapoque

Nem sempre se fala português no Brasil.

– Cent, cent! — dizia a meia-dúzia de homens a nos cercar, enquanto saíamos do Fiat Uno de duas portas do nosso amigo-guia amapaense Venilton, que logo tomou a nossa frente, enfrentando os vendedores de passagem de ônibus.

Havíamos sido confundidos com gringos, provavelmente pela brancura paulistana de nossas pernas à mostra sob o calor úmido de Macapá.

– Aqui é brasileiro, tem essa não — avisa Venilton, em tom firme.

Desconcertados, eles foram timidamente abrindo espaço. Venilton trata de pedir nossas passagens para Oiapoque no balcão da Amazontour dentro da modesta e pequena rodoviária.

– R$ 75 — anuncia a atendente.

– Não, não, 65. Não vai ter comissão, tô comprando direto com você — ordena nosso amigo com ares de gente bem relacionada.

Às 17h daquele dia, embarcamos no ônibus com ar-condicionado em direção ao mais extremo norte do Brasil. Como último ato de tutela da nossa ida à Guiana Francesa, Venilton pediu ao motorista, amigo dele, que cuidasse de nós. Talvez os vendedores desesperados da porta da rodoviária estivessem certos: naquele momento, éramos mesmo estrangeiros em nosso próprio País. Antes, tínhamos viajado cinco horas de avião de São Paulo até a única capital brasileira cortada pela linha do Equador.

Quem sai da capital do Amapá em direção ao Oiapoque, no extremo norte do Brasil, encara 576 km pela BR-156. É a única rota a ligar as duas cidades amapaenses. No caminho de quase 600 km da estrada que atravessa a reserva do Rio Ouro Preto — onde vivem 36 aldeias dos povos caripunas, galibi e palikur — só 360 km são asfaltados, tomando cerca de cinco horas de viagem. A via vai só até pouco antes de Calçoene, um povoado garimpeiro e escuro, onde vimos pela janela uma cena comum da floresta: pessoas armadas com facões amarrados em seus cintos. Passava das 21h quando os poucos homens que permaneciam em frente de casa se aproximaram curiosos pelo cheiro de queimado do veículo em que estávamos. O problema mecânico atrasaria nossa viagem em cerca de 40 minutos, mas o cheiro continuaria por mais seis horas até a fronteira.

O resto da estrada é de terra batida e não só passa no meio da floresta densa, como circunda penhascos na Serra Lombarda. Em dias sem chuva — e consequentemente sem atoleiro — essa viagem pode durar 11 horas. Mas se as condições climáticas não forem as melhores, a aventura chega a levar 16 horas.

Quando passou da meia-noite e todos ficaram em silêncio, contemplamos o céu estrelado que aparecia e sumia no meio do teto de folhas que se forma em alguns trechos do caminho. Não era o tipo de céu ao qual estamos acostumados em São Paulo. As estrelas são numerosas e parecem estar próximas de tão brilhantes. O horizonte é bucólico, só com algumas casinhas iluminadas por lamparinas fracas, bem à beira da estrada, distantes pelo menos um quilômetro umas das outras, onde, de tempos em tempos, se vê placas da Fundação Nacional do Índio (Funai). Ainda estava escuro quando acordamos com o ônibus estacionando na rodoviária do Oiapoque, cidade localizada a 15 minutos da margem francesa do rio que dá nome ao município de 20.500 mil habitantes e 22.625 km², aproximadamente a mesma extensão territorial do Estado de Sergipe. Esperamos duas horas. O Sol não dava sinais, mas sabíamos que não demoraria muito para começar a aparecer. Pegamos um táxi. A corrida nos custou R$ 10 e 10 minutos.

Chegamos à margem do rio e a cena de Macapá se repetiu: descemos do carro e fomos imediatamente disputados por barqueiros se oferecendo para nos atravessar em suas voadeiras, como são conhecidos os barquinhos motorizados em formato de canoa. Os preços variavam entre R$ 10 e R$ 15 ou € 5. O “porto” em questão não passa de uma palafita que se assemelha a um ponto de ônibus qualquer. Lá, todos os dias pela manhã, pessoas vendem café e bolo em banquinhas improvisadas. Curiosamente, essas banquinhas também são chamadas de “posto de troca avançado”. É ali que o viajante tem a última chance de trocar reais por euros antes de embarcar para a outra margem do rio que separa o Brasil e a Guiana Francesa.

Uma escada leva às catraias, outro nome dado a essas pequenas e precárias embarcações de madeira e lona. Elas ficam atracadas lado a lado, presas em troncos de madeira já gasta pela água. Com dificuldade, levamos as malas pesadas até a embarcação e nos sentamos desengonçados, deixando evidente que nunca havíamos feito aquilo. Nos 15 minutos seguintes, vimos o dia amanhecer sem timidez naquela paisagem tipicamente amazônica. A mata ciliar inundada pela cheia do rio de cor escura, o canto de diferentes espécies de pássaros, o cheiro forte de mato misturado com água e o ar de frescor formavam um cenário incomum para nós, estudantes da Avenida Paulista. Algo que conhecíamos apenas pelas repetitivas imagens que já vimos pela TV.

Diariamente, centenas de pessoas migram para o lado francês e, para quem não tem visto, a preocupação e a apreensão são companheiros de viagem. O caminho mais comum dos imigrantes ilegais que saem do norte do Brasil em direção ao nosso vizinho europeu é outro: pelo mar — onde muitos barcos a remo se deixam levar pelas correntezas até o litoral da Guiana Francesa, geralmente nos arredores das cidades litorâneas de Caiena ou Kourou. Eles driblam as barreiras da gendarmerie, a polícia militar francesa, entranhando-se na floresta até chegarem e se instalarem em segurança nas cidades ou em abrigos na selva.

Atravessamos o Oiapoque e chegamos a Saint-Georges, a primeira cidade depois do rio. Descemos da voadeira e pisamos em solo francês. Logo à vista, várias vans paradas à espera dos passageiros denunciam que o trajeto é mais comum do que imaginávamos. Negociamos uma viagem até Caiena com Hugo, um homem alto, negro, gordo, que usava óculos escuros e camisa aberta no peito exibindo um colar de ouro maciço. Disse que seria € 30 (R$ 79) por cabeça, mas precisava de mais gente para encher o veículo e aconselhou que tomássemos café-da-manhã. Afinal, já passavam das sete horas da manhã e tínhamos virado a noite nos alimentando apenas de biscoitos e salgadinhos. Quando fizemos menção de pegar nossas malas, ele disse que podíamos deixar ali mesmo. Resolvemos arriscar.

Seguimos para a praça principal. As construções de madeira, com cercas branquinhas e baixinhas, e as ruas vazias davam a impressão de uma cidade fantasma. Entramos no primeiro bar que vimos, porém o café completo custava € 8 (ou R$ 21). Voltamos para o carro sem comer um croissant sequer e Hugo avisou que iríamos partir. Depois de três horas, estaríamos em Caiena, a capital. A estrada que liga a cidade fronteiriça à principal é de primeiro mundo: bem asfaltada, sem buracos e com boa sinalização. O único problema são as curvas sinuosas intermináveis, que somadas à pressa do motorista, causavam náusea. Era impossível manter o equilíbrio.

Para entrar no Departamento Ultramarino Francês (DUF), como é chamado esse território quase que colonial, é preciso um visto — mesmo que a visita dure menos de três meses. Rigor maior do que é exigido para uma viagem turística à França, por exemplo. Em São Paulo, é necessário agendar uma entrevista e se dirigir ao 14º andar do número 1.842 da Avenida Paulista, endereço do consulado-geral francês na metrópole. O visto custa € 60 (cerca de R$ 150), mais caro do que para outros departamentos franceses bem mais paradisíacos, como a ilha de Taiti, na Polinésia Francesa, para onde a solicitação de visita sai por R$ 23,90. É obrigatório apresentar cópias e originais dos principais documentos brasileiros mais o passaporte, a última declaração de imposto de renda, extratos bancários e um seguro consular, que garante seu resgate em casos de urgência, de € 3 mil (ou R$ 8 mil). O passaporte é devolvido em até 15 dias úteis. Já no Amapá, um dos estados que mais “exporta” moradores para a Guiana (seguido do Pará e do Maranhão) a burocracia toma só um dia desde que os governos dos dois países traçaram um acordo para permitir a circulação de pessoas entre o Oiapoque brasileiro e sua versão francesa em St. Georges.

Logo nos primeiros 15 minutos de viagem de van, fomos parados pela polícia rodoviária. Não tínhamos carimbado o passaporte, pois o posto da polícia imigratória só abriria às 8h, e Hugo garantia que poderíamos carimbar o documento quando chegássemos em Caiena. Informação equivocada. Tivemos que voltar ao posto policial e esperar o início do expediente mas, uma vez aberto o local, o processo foi simples e rápido. O responsável perguntou o que estávamos fazendo lá, viu que éramos estudantes, leu uma carta da faculdade explicando o motivo da nossa viagem, e desejou boa sorte. Hugo se mostrou amigável e nos fez muitas perguntas sobre o Brasil durante a jornada até Caiena. Disse que gostava de música brasileira e ligou o som no último volume. Seu MP3 estava repleto de tecnobregas dos mais variados. Na van, além de nós, havia mais um brasileiro e um garoto guianense de cabelos cuidadosamente trançados, ambos no banco mais ao fundo do carro. Em determinado momento, Hugo quis saber se tínhamos um pendrive com músicas do Brasil. Ligamos o aparelho no carro e o motorista riu e dançou ao som de Gilberto Gil, Jorge Ben e Caetano Veloso. “Muito bom isso aí! Vou roubar esse MP3”, disse em português carregado de sotaque francês, bastante estranho aos nossos ouvidos, no entanto, completamente claro. Fomos parados pela polícia novamente. Conferiram nossos passaportes, agora carimbados, revistaram nossas malas e nos liberaram. Éramos tratados com muita simpatia pelos oficiais franceses, que até fizeram piadinhas: “Nossa, quanta coisas vocês estão traficando!”, referindo-se a nossa bagagem que continha apenas roupas e petiscos. Esperávamos uma reação mais hostil por sermos brasileiros, mas a cara feia estava reservada para os dois outros rapazes de cor de pele menos clara. Algum tempo depois, passamos pelo posto militar, última parada policial da estrada. Perto dali, há um galpão de alumínio onde os imigrantes ilegais esperam que algum carro com “coiotes” os busquem para seguir trajeto. Alguns soldados armados foram até nós para verificar, mais uma vez, nossa documentação. Fomos liberados de novo.

Hugo nos despertou e avisou que estávamos na capital. Ao abrir os olhos, não conseguimos captar de primeira a essência do lugar. Era confuso, feio, caótico. Avistamos o Central Hotel, que destoava da paisagem em meio a construções enferrujadas. Ali seria nossa redação e nossa casa pelos próximos dias.

(Este é o capítulo introdutório do livro “Guiana Francesa — a vida dos brasileiros no vizinho europeu”, escrito em parceria com Bruna Caricati e Caio Proença como Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo na Faculdade Cásper Líbero, em 2012)