Tem que saber de peixe

Ser brasileiro não é o suficiente para não ser estrangeiro na Amazônia

(Foto: Mariana Oliveira)

Tenho saudade de quando o assunto entre desconhecidos não era política. Faz um tempo que evito a todo custo que o papo com taxistas descambe por este lado, então ao entrar no táxi numa rua próxima ao Teatro Amazonas, pensava em proceder o bom-dia com um “parece que vem chuva”, o que é no mínimo uma obviedade na Amazônia de dezembro a junho. Para minha sorte, Gomes, um outro inteiramente desconhecido àquela altura, sentou-se no banco do carona, me protegendo da interação. Estávamos indo para a Reserva do Juma, a dois barcos e um trecho de estrada dali, onde passaríamos três dias na selva.

Como o rádio estava sintonizado em um programa que dava notícias de Brasília, eu, prevendo defesas e acusações, me distraí observando o céu nublado. Por isso, não sei bem como foi que começou aquele assunto, mas quando voltei ao aqui-agora daquela manhã de quinta-feira, o motorista já estava avançado em uma importante questão manauara: peixes.

(Foto: Mariana Oliveira)

Não podia acreditar que, de tantos nomes citados, nenhum figurava em listas de delação, era só a sonoridade indígena dos pescados regionais. E as frases feitas eram do tipo “comeu jaraqui, não sai mais daqui”. Passava um pouco das sete horas da manhã e fui completamente despertada quando o taxista começou a recitar — sim, porque aquilo era um poema! — uma receita de pirarucu ensopado. “Aqui a gente não entende muito de churrasco, de carne… mas tem que saber de peixe!”, orgulhou-se. Ele tinha razão.

Desde que pisei no Norte pela primeira vez, em 2012, na capital amapaense, quando me encaminhava para a Guiana Francesa, senti que, mesmo antes de atravessar a fronteira, eu já era estrangeira. Tinha na cara aquele olhar infantil cheio de curiosidade, fazendo sinapses a todo momento para compreender um novo mundo. Cinco anos depois, o Norte brasileiro não era apenas uma passagem, mas meu destino, sem previsão de volta. E dias antes de entrar naquele táxi, justamente por causa dos peixes, eu havia me sentido um tanto mais local em Manaus.

(Foto: Mariana Oliveira)

Era a xepa no Mercado Municipal Adolpho Lisboa. Um comerciante gritou: é 10, pra acabar. Cinco, respondi sacando uma nota. O senhor ficou claramente desapontado com a minha baixa contraoferta, mas levei uma dúzia de sardinhas. Conforme eu andava pelos corredores da peixaria, os valores dos tambaquis diminuíam a cada passo. Já estava prestes a ir embora quando avistei um monte de tucunarés. Eu não só vi o tucunaré, eu o reconheci. No dia anterior, na Praia da Lua, um grupo se gabava de um belo exemplar pescado ali, meio fora de época. Perguntei: moço, quanto está o tu-cu-na-ré? — tenho certeza de que a taxa de turista caiu com este conhecimento recém-adquirido. Sete. Pronto, faria uma caldeirada e cismei que precisava de espinhada para o caldo. Saí de barraca em barraca atrás das carcaças. Logo, todos os vendedores do perímetro sabiam de minha busca e um deles me chamou, querendo cobrar 10 reais por um montante. Dei aquele sorriso de incredulidade e saí andando. “Cinco”, tentou ele. Repeti a indignação. “Tá bom, moça, peraí”, desistiu o rapaz enchendo gratuitamente um saco com aqueles restos que, se não fossem para a minha panela, acabariam no lixo.

Tudo isso me fez lembrar Manaus, uma amiguinha da minha mãe, de uns nove anos, que em São Paulo acabou tomando o lugar de onde veio por apelido. Ela dizia não gostar muito de piscina nem dos peixes paulistas. Manaus gosta mesmo é de rio e peixe de água doce.