Carta ao RH
Quando os processos seletivos perderam a noção
Olá, RH, lembra de mim? É claro que lembra, nos encontramos várias vezes nas últimas semanas. Talvez você não esperasse uma carta minha, afinal, ainda não somos nem amigos. Conversamos algumas vezes, mas nunca foi aqueeeela conversa bacana, então não deu pra engrenar uma amizade.
Talvez seja porque eu sou nova por aqui, ainda não rolou aquela confiança pra você querer me conhecer melhor. Realmente, é complicado fazer amizade com alguém que você nunca ouviu falar, que não tem amigos em comum. Vai saber com que tipo de pessoa se está falando, né?
Mas ao contrário de você, que nunca ouviu falar de mim antes, eu já ouvi falar muito de voce. Todo mundo te conhece. E te respeitam muito, também. Voce é comunicativo, simpático, líder e tal, e já deu pra perceber que você virou até um líder natural da turminha. E confiam tanto em você que os outros caras legais nem conversam com gente que você não aprova. E é sobre isso que eu gostaria de falar um pouco.

Tem um cara, inclusive, que é meu crush já faz um tempo. O nome dele é TI. Eu to de olho nele já faz uns anos, mas ele é meio reservado. Acho que não vai rolar nada enquanto eu não puder entrar pra turminha também. Mas isso não importa, sei também de muita gente que ta a fim de outros caras, mas também ta complicado por causa daquele probleminha de aceitação.
Recentemente eu tenho feito muitas muitas coisas para chamar sua atenção, RH. Repaginei o meu CV, fiz provinha online de português, inglês, matemática e lógica, respondi formulários e mais formulários e enviei pra você, em vários endereços. Até vídeo de apresentação eu fiz, quase morri de vergonha. Teve também aquele teste para traçar o perfil que, tenho certeza, daria um resultado totalmente diferente cada vez que eu fizesse.
Às vezes eu fiquei chateada que você nem ao menos me disse um “oi, obrigado pelo envio”, e fiquei imaginando se eu tinha feito alguma coisa errada. Será que tava sendo repetitiva demais, chata demais? Ou será que o envio nem deu certo e você não recebeu? Mas tudo bem, eu entendo que tem muita gente escrevendo pra você, não dá pra olhar tudo ou responder tudo.
Mas aí teve aquelas vezes que você pareceu que gostou e me respondeu, e meu coração se encheu de esperança. Me chamou pra tomar um café, pra conversar. Convidou também outros pretendentes à turminha, organizou umas brincadeiras. Foi até legal! Eu entrei na brincadeira, e olha só, eu acho que nem joguei tão mal assim.
Teve aquele jogo de “resolva o case” que foi bacana, acho que fazia até sentido. Não fui nenhuma revelação no jogo “apresente-se e diga seu sonho profissional em 20 segundos”, nem no “crie uma solução fantástica para este problema mirabolante”, mas já deu pra provar que eu não tinha tanta dificuldade assim. Aqueles jogos “diga 5 defeitos e 5 qualidades suas” e “onde voce se vê daqui a 5 anos” foram meio que golpe baixo, mas faz parte. Mas afinal, eu acho que não precisava ser nenhum expoente da desenvoltura social pra poder fazer parte de um clubinho tão variado, né? Posso até ter uma grande afinidade com alguém do clubinho (TI ❤).

Mas aí você deu uma saída, falou que não ia dar pra falar comigo hoje, talvez numa outra ocasião. E eu fiquei chateada, de verdade. Será que fiz algo de errado nas brincadeiras? Será que foi minha roupa, meu cabelo, minha cara? Será que eu sou antipática? Eu disse algo que não devia? Ou será que foi com o meu currículo sem enfeites? O ciclo vicioso da falta de experiência? Mil coisas passaram pela minha cabeça.
Porque até aí eu tava até acreditando que era uma pessoa legal. Agora só faltava mostrar o que eu tinha de melhor! E acredite, eu tenho umas cartinhas sedutoras na manga. O TI iria gostar.
Só que não foi assim. Você me mostrou que ser equilibrado é ruim, e que minhas habilidade especiais podem ser completamente ignoradas se você não entende pra que elas servem.
Lembra que eu disse que você é comunicativo, líder e tchap tchuras da interação social? Pois então, eu vou te falar agora uma coisa que talvez te surpreenda: nem todo mundo precisa ser assim. Nem todo mundo quer ser igual você, RH. E é melhor que seja assim, porque um grupo não pode ser formado só de líderes. E pro grupo funcionar, é preciso que haja também pessoas com habilidades que você não apenas não tem, como também você ignora que existam.
Então, RH, não fique chateado comigo. Eu só quero o seu bem. Tenho certeza que você só está tentando preservar o seu clubinho, trazendo apenas as melhores pessoas pra dentro. Mas da próxima vez, chama os outros caras pra te ajudarem a organizar as brincadeiras. Porque, sério mesmo, você é péssimo em se importar com o que realmente importa.