Museus e “big data”

Ontem, depois de ter participado de uma mesa redonda de lançamento do e-book “Tudo sobre tod@as: redes digitais, privacidade e venda de dados pessoais”, de autoria do professor Sérgio Amadeu de Oliveira, senti aquele velho e bom incômodo que me faz querer escrever. E eis que a inspiração resolveu me conceder cinco minutos de seu precioso tempo e me ajudar a escrever o presente texto.

Quem convive comigo sabe que eu sou uma árdua defensora dos dados abertos e do acesso livre aos conteúdos sobre o nosso patrimônio cultural. Mas, quando as tecnologias e as políticas envolvidas na ampliação do acesso esbarram em questões relativas à captura de dados pessoais e desrespeito à privacidade por empresas do setor privado dedicadas ao comércio da informação, tendo a ver a questão do acesso com outros olhos, bem diferentes.

O que temos nas mãos hoje é um cenário em que muitas vezes a ideia de acesso ampliado — ótima, necessária e atual — vem, muitas vezes, junto com um pacote de desdobramentos opacos para a maioria de nós. Claro, temos os termos de uso, termos de serviço, as políticas de privacidade… Mas, quem de nós consegue ter o real interesse de ler as letras miúdas quando está interessado em ter rapidamente o conteúdo tão desejado?

O Google Art Project, por exemplo, é uma das mais famosas iniciativas e que já tem instituições brasileiras em seu escopo. Quem conhece o projeto pode concordar comigo que as imagens são lindas, em altíssima resolução, e que a lógica hipertextual da organização da informação nos permite muitas vezes navegar da plataforma do Google para outros sites, como a Wikipédia, por exemplo. Amplia-se, assim, o rol de coisas que podemos saber com apenas alguns cliques.

Outro exemplo claro são os aplicativos para museus, desenvolvidos por empresas privadas (como o Google, vale sempre lembrar) disponibilizados para download em lojas virtuais da Apple, da Google e por aí vai. O objetivo dos aplicativos é, muitas vezes, enriquecer a visitação do público por meio de maiores informações sobre as peças, sobre as exposições, os horários de funcionamento da instituição e outros serviços e facilidades oferecidos pela instituição. É tudo ótimo, prático e realmente uma “mão na roda” quando temos um museu inteiro a explorar, mas pouco tempo e nenhum senso de direção a respeito do que seria mais interessante ver primeiro. Basta fazermos um cadastro, ter acesso à internet e voilà, tudo pronto na palma da nossa mão.

Esses dois casos trazem uma nuance pouco discutida aqui ainda na terra brasilis — pelo menos no contexto da área cultural, e, em particular, dos museus: o “big data”, ou o grande conjunto de dados que nós disponibilizamos, com alegria, para os bancos de dados de aplicativos ou plataformas como a da Google e que, posteriormente, alimentam as empresas que trabalham minerando e capturando tudo isso para vender para outros serviços. Muitos museus alegam que sem o uso desse grande conjunto de dados disponibilizados voluntariamente pelos visitantes[1], ficaria muito mais difícil entender o comportamento dos mesmos dentro do museu ou fazer as famosas análises preditivas a respeito do que as pessoas gostam mais de ver e saber (qualquer semelhança com o algoritmo do Facebook não é mera coincidência).

Mas aí podemos questionar: haverá espaço para a provocação, para o compartilhamento de memórias difíceis (logo, que nem todo mundo gosta de ver ou ouvir sobre) e para a inovação nos museus com tantas análises de comportamento podendo interferir nas escolhas curatorais? E para onde vão os dados disponibilizados por nós quando nos cadastramos nesses aplicativos ou usamos as redes de wi-fi das instituições? No caso da plataforma do Google, o que exatamente as instituições ganham ao disponibilizar imagens das suas coleções que não podem ser baixadas pelos internautas? Quais são os interesses por trás desse gigante atual em possuir tais imagens e depois oferecer um aplicativo que você pode baixar em um dispositivo para visualizar os dados sobre os bens?

Não, não estou falando de nenhuma teoria da conspiração aqui. E, por mais que pareça algo saído do episódio “Nosedive” de Black Mirror, é algo que estamos vivendo na pele todos os dias. Estamos sendo mapeados diariamente — e os museus também. Então, cabe a nós nos perguntarmos quais são as reais consequências dos usos de tais facilidades disponibilizadas por meio desse capitalismo de dados no qual vivemos.

Com isso, claro, não estou defendendo que nenhuma instituição volte atrás ou deixe de ter seus aplicativos ou de usar tecnologias da Google ou da IBM ou qualquer outra gigante do universo telecom. Nem que elas deletem suas contas no Facebook ou Twitter. Mas que fiquem atentas às políticas de todas elas, assim como nós enquanto cidadãos vivendo nesse mundo hiperconectado, louco, muitas vezes confuso e pouco transparente.

[1] http://www.rcip-chin.gc.ca/sgc-cms/nouvelles-news/anglais-english/?p=9958

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