Para não dizer que não falei… dos metadados

Já faz um certo tempo que falar de metadados na área cultural é uma coqueluche. Quando nos encontramos nos seminários, eventos e conversas de corredor da vida sempre surge aquela conversa sobre a dificuldade de se organizar, padronizar e recuperar informações sobre os acervos e logo surge alguém que diz: “Ah, mas aí temos os metadados…”. E todo mundo balança afirmativamente a cabeça, concordando que eles são um forte aliado para resolver vários dos nossos problemas crônicos de documentação.

Porém, toda vez que me vejo pensando ou conversando com alguém sobre isso, me vêm sempre a mesma pergunta: mas o que é mesmo isso que estamos chamando de metadados? E eu, sendo uma profissional da área de museus, como me encaixo nisso tudo? Como me relaciono com esse assunto? Aqui, vale acrescentar que volta e meia eu mesma preciso falar sobre isso durante as minhas aulas — o que me dá sempre, sem sombra de dúvida, aquele friozinho na barriga diante de um tema altamente fascinante, complexo e que me dá certeza de que sempre haverá algo novo para ser entendido ou revisto.

Acho que o primeiro ponto que vale a pena ser mencionado é que há várias formas de se conceber o que são metadados. E há tantas outras formas de usar os metadados. Puxando isso para as instituições que trabalham com memória, aí teremos uma variação maior ainda. Mas, vamos por partes.

No universo web, temos dados saindo e chegando de vários lugares, alimentando sistemas diferentes e fazendo com que a integração tecnológica seja a alma do que chamamos de conectividade digital. Os metadados, podemos dizer assim, são uma das lenhas que mantém essa fogueira viva. Eles permitem a comunicação entre ambientes informacionais distintos, colaborando na automação (possível) e no que considero praticamente uma transliteração de sintaxes e conteúdos por meio de padrões de dados. No Brasil, o uso de padrões de metadados, particularmente na área de museus, ainda é tímido — o que tem bastante a ver com outro post meu. Apesar do caminho longo que se apresenta para os museus brasileiros se apropriarem totalmente desse universo, vale a pena falar de metadados por aqui mesmo assim.

Os metadados podem ser entendidos, de uma forma geral, como elementos que a) nos ajudam a descrever os atributos de um recurso informacional (que pode ser um objeto, físico ou digital) e b) nos ajudam a codificar dados do registro da descrição. O objetivo dessas duas operações é promover o melhor gerenciamento, preservação e recuperação das informações (no caso, das descrições dos atributos e dos registros nos quais foram inscritas). Em outras palavras, os metadados operam, assim, em dois níveis básicos: o das coisas em si e o das representações das coisas.

Fazendo uma analogia direta para a área de museus, é como se os metadados da situação A fossem os campos das nossas antigas fichas catalográficas ou dos nossos atuais bancos de dados. E os da situação B fossem os campos usados por nós, em fichas ou sistemas, para identificação, por exemplo, do responsável pela criação da ficha ou registro, bem como de sua data. Esse pequeno detalhe, talvez explicado não da forma mais correta ou mais erudita, faz toda a diferença para que esse assunto possa ser melhor compreendido na área de museus.

Para usar outro exemplo, como bem lembraram Lima, Leopoldina e Segundo (2016), temos o caso de uma pintura X e a imagem digital dessa pintura X. Nesse caso, há os dados descritivos da pintura (autor, título, tipo de título, data de criação ou produção, número de identificação etc) e os dados descritivos da imagem da pintura (Autor, data de criação, formato, tamanho etc). Ambos os conjuntos de dados descritivos podem ser entendidos como metadados descritivos da obra e da sua representação — a imagem digital. Além disso, poderíamos acrescentar os dados administrativos da pintura como um segundo conjunto de atributos da mesma (data de aquisição, forma de aquisição etc), o que também se repete no caso da imagem digital.

Esse exemplo reforça a importância de dois aspectos relativos ao assunto metadados no contexto dos museus: primeiro, de que nunca estamos lidando com informações somente sobre uma coleção, pois em muitos casos existe o seu “duplo” digital. E segundo, que o uso de padrões de metadados — sejam descritivos, administrativos ou de qualquer outro tipo — é extremamente importante e válido para uma gestão mais qualificada do nosso patrimônio. Principalmente se queremos ver os nossos museus virando a curva das estradas digitais.

E aí reside justamente uma celeuma daquelas dignas de briga pós futebol de domingo, onde todo mundo xinga, todo mundo tenta apartar e ninguém sai muito satisfeito (e alguns saem com nariz sangrando).

Tem gente que acha que só o uso de padrões adaptados das bibliotecas, muito mais avançadas que as outras instituições de memória no desenvolvimento e aplicação de metadados, em museus dá conta do universo das coleções. Tem gente que acha que não, que não dá conta, mas que os museus deveriam desenvolver um padrão próprio e único e usá-lo até o fim. E aqui reside o mito do santo Graal: o padrão único que salvaria a todos nós e que, claro, dificilmente vai existir. E, por último, existem aqueles que acham que tanto os padrões de metadados das bibliotecas, quanto os padrões próprios deveriam sim ser usados no dia a dia dos museus, combinando aquilo que for mais adequado e compatível com as tendências de compartilhamento online de dados. Eu, particularmente, faço parte desse último grupo, pois acredito que abordagens híbridas feitas a partir de padrões e métodos consolidados podem gerar resultados bem interessantes.

Nessa galáxia de padrões em órbita de instituições do tamanho de naves interestelares ou de um pozinho de areia cósmica, vale sempre olharmos para aqueles que nos interessam e estudá-los, criticá-los, traduzi-los e — por que não? — melhorá-los. Afinal, uma última lição que os metadados nos ajudam a entender é que no mundinho “.com” não existe padrão maravilhoso que sempre dure, nem desordem ruim que seja eterna.

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