A Física da Procura vai transformar sua vida

E se você estiver realmente disposto a considerar tudo o que acontecer com você nessa viagem como uma pista? As palavras de Elizabeth Gilbert explicam o que aconteceu quando entrei num trem que não dormia…

O trem descia em direção a Brindisi, um porto no sul da Itália. Do meu lado esquerdo, o Mar Adriático num azul-turquesa que há tempos eu não via no céu. O balanço macio e silencioso do vagão, a onda morna do sol — por sorte ele brilhava no inverno — me aconchegaram por longas horas

Vêneto, Emilia-Romagna, Toscana… Não percebi a paisagem mudando na janela. Eu só queria ficar sentada ali à janela por uma semana. Nada mais de descer em estações cheias, esbarrar em gente estranha, correr atrás de lugar para dormir… Pelo menos por um tempo. Queria esquecer que fugira do caos pré-réveillon de Roma para descer em uma fria Veneza — dessa vez encharcada de tanta chuva que me fez desistir de ficar por lá — e, finalmente, encontrar abrigo em Verona, onde passei minha última noite daquele ano.

Sozinha.

Eu estava triste. E cansada.

Antes de pular para dentro do trem, liguei para casa e disse que ia para a Grécia procurar sol. Mas no meio do caminho já estava decidida a pegar o trem de volta quando chegasse a Brindisi.

Muito tempo depois, eu iria aprender a viajar pela Itália.

Somente quando voltasse mais madura eu iria perceber que ali é assim: descer em uma estação meio caótica, passar esbarrando entre gente falando alto, virar a esquina daquela ruazinha qualquer e dar de frente com alguma coisa milenar tipo um Coliseu imponente, uma escadaria deslumbrante, uma fonte mítica… É a recompensa.

Mas antes de tudo isso, eu adormeci com o balanço do trem.

Alguém me cutucou e já pensei: “Lá vem o homem do chapéu”. O homem do chapéu é aquele que sempre me pede o bilhete quando caio no sono.

Não era ele.

Um David de Michelangelo foi criando foco enquanto eu abria os olhos com dificuldade. Esfreguei o rosto e li “Galleria dell´Academia”. É que quando adormeci com meu caderno companheiro nas mãos, um postal da escultura perfeita deslizou e parou aos pés de um jovem moreno de cabelos cacheados sentado de frente pra mim.

Pôxa, podia ser o David…podia ser assinado pelo Michelangelo…Mas era a foto de um homem pelado (e admirável) que eu carregava! Por que não caiu um postal da Sacra Famiglia?

Na minha crise emocional italiana nada era mais inconveniente do que ser exposta em público com a foto de um peladão.

O rapaz e um amigo seguraram o riso até a explosão de gargalhadas mostrando os dentes da frente chapeados em dourado. A velhinha ao lado grunhiu e voltou a cochilar. Eu tentei não dar atenção aos dois, que já se assanhavam querendo conversar.

Fiz a dorminhoca e fechei os olhos.

Bari, uma outra cidade, um sonho rápido. Brindisi…

Desci na estação. Não queria ir sozinha à Grécia com aquela chuva chacoalhando os barcos no porto. Chequei os horários de trem de volta para Roma.

(eu tinha uma questão com a indecisão — ou não encontrava o que estava procurando)

Olhei à minha volta e esbarrei em Carlos, um mexicano que parecia tão confuso quanto eu. Atravessamos, agora menos atordoados e na companhia um do outro, o mar furioso num navio vazio, numa noite de inverno.

Acho que ninguém mais faz essa bobagens agora que a internet explica tudinho ao viajante antes mesmo que ele saia de casa.

Carlos vinha perambulando pelo mundo como eu, em busca de algo… Não sabia bem o quê. Uma crise econômica no México mudara a vida dele. Carlos reconhecia que seu povo estava mais forte agora. Mas trabalhando tanto e tão focado no individualismo

Desconfiados de tudo, os mexicanos priorizavam agora o egoísmo e o medo. E meu novo amigo, meio amargurado, saíra para viajar em busca daquele tal não sei o quê.

Carlos prometeu estar ao meu lado durante toda a jornada pela Grécia e, assim, me ajudar a esquecer a saudade de casa. Um erro de cálculo quando olhou seu extrato bancário quase o fez voltar para Monterrey (onde mora, no México) no segundo dia em Atenas. Ainda abalado, após resolver o problema, Carlos sentou-se à mesa de um bar e ali conheceu alguém que contou estar indo estudar no México porque “aquele é um dos países mais ricos do mundo”.

Algo me diz que naquela mesa Carlos encontrou o que procurava.

Mais tarde, na volta para a Itália, revelou que estava cansado e iria voltar para casa, onde desejava construir algo. Desde o dia em que o conheci, foi no último, quando jogou a mochila nas costas para partir, que percebi Carlos sem nenhum peso no ombro.

Segui para as montanhas suíças — desacostumada a olhar para o lado e não ver meu amigo.

Alia, uma jovem de beleza exótica, me atendeu no albergue onde cheguei. Tempos antes, um atentado nos Estados Unidos provocara uma tempestade de pensamentos na cabeça daquela menina.

Alia era da realeza. Do Afeganistão.

Em 1979, quando os comunistas vieram, sua família deixou o país e seu pai se casou com uma americana: ela nasceu. Seu primo era ninguém menos que Mohammad Zaher Shah, rei do Afeganistão de 1933 a 1973, que, depois do exílio em Roma, retornou à capital Cabul em 2002 após a queda do regime Talibã ( e faleceu em 2007). Para Alia, aquela era a chance de colocar os pés no país de origem da família pela primeira vez.

Um dia, enquanto eu lia um livro embaixo de uma árvore na montanha, Alia se aproximou e me contou que estava bem perto de decidir o que iria estudar na Holanda: Relações Internacionais.

Yanira eu conheci no trem rumo à Suíça. Chilena. Seus pais a levaram para o Brasil com um ano de idade, infelizes com a ditadura Pinochet. Ela cresceu e virou brasileira. E, quando já havia aprendido a gostar de feijoada, carnaval e outras brasileirices, a situação política se transformou.

E os pais de Yanira a levaram de volta para o Chile, agora um novo país para ela.

Meio sem pátria e sem saber o que fazer, Yanira fazia parte da turma em busca do tal não-sei-o-quê. Durante aquele inverno, trabalhou na montanha metida em um fantasia de raposa selvagem. Sua função: convencer pais a bater uma foto de seus filhos com ela e os Alpes ao fundo.

Dentro daquela fantasia enorme e desconfortável ela deve ter encontrado algo. Um dia entrou num trem para Barcelona. Foi estudar Artes Dramáticas por lá. Nossa despedida foi um momento e tanto: oito horas da noite e o sol ainda batia com força na montanha alaranjada atrás da estação de trem. Chegava a primavera.

Yanira foi.

Antes de chegar à cidade de onde eu iniciaria um trecho do Caminho de Santiago de Compostela, na Espanha, escolhi descer em San Sebastián — no País Basco. Quem contempla a orla de San Sebas e sente aquele ar de Rio de Janeiro hispano-francês, não imagina que por trás daquilo tudo ainda existe uma complicada história política envolvendo separatismo. Caminhando até o albergue, conheci Miguel, outro mexicano (!).

O garoto de 20 anos queria ser cineasta e estava por aí para conhecer Pedro Almodóvarpessoalmente, num desses golpes de sorte da vida.

Deixara em casa o irmão gêmeo e uma família meio desmantelada. A mãe, uma chilena de sobrenome Allende, conheceu o pai de Miguel, um mexicano, em um navio. Durante anos trocaram cartas, o mexicano e a chilena. Até que ela deixou tudo o que tinha, inclusive a família, e foi viver seu grande amor no México.

Mas como Miguel disse, às vezes o amor entre duas culturas diferentes não sobrevive. Cansado das constantes separações e volta dos pais, frustrado por não conhecer seu sangue chileno, Miguel partiu em busca de Almodóvar.

Dias atrás, ele me escreveu. Não conheceu o cineasta espanhol. Mas estava no Chile, curtindo a família que acabara de conhecer. E com uma proposta brilhante: dentro de um mês estaria iniciando um trabalho na Espanha. Em cinema.

Acordei com o “homem do chapéu” cutucando meu ombro e, num forte sotaque galego, pedindo o bilhete.

O embalo gostoso do trem agora era um chacoalhar irritante e o sol da Espanha já ardia no meu rosto. Entreguei o bilhete e desci na estação seguinte procurando, procurando…

Era 11 de setembro. Minha mãe deveria estar me esperando.

Ela vinha do Brasil para caminhar até Santiago de Compostela comigo. Mas nada do voo chegar. Parece que todo o tráfego no céu estava atrapalhado naquele dia.

Fui subindo a rua íngreme pelo lado direito da estação ferroviária rumo ao albergue onde iríamos dormir. O fluxo de peregrinos era grande. Todos seguravam cajados, todos pareciam cansados. Quase todos vinham com os pés enrolados em curativos. Ri daquela sutil desgraça alheia.

Todos estava procurando o tal não-sei-o-quê.

Parece que nada vai parar quem procura.

Na manhã seguinte, um dia depois do esperado, minha mãe apareceu na porta do albergue. Vinha junto com minha tia e uma grande amiga delas — amiga lá da infância. Com nossas mochilas e cajados, partimos em direção a Santiago de Compostela a pé.Procurando…Procurando… Ainda não sabíamos, mas aqueles seriam os primeiros passos de um novo e longo ciclo de vida pautado por grandes caminhadas. Mas isso é outra história.