os fins acontecem num sábado às duas da tarde
sempre topava com ela no elevador. nos encontrávamos quando ainda era dia, e o aroma de álcool e cevada tomava conta do cubículo. segurava uma sacola de plástico com latinhas de cerveja que comprara na lanchonete da esquina. e eu a julguei.
uma vez, caiu da escada e desmaiou. quando a socorreram, acordou perdida e perguntou de maneira ríspida: “o que você está fazendo?”. eu a julguei, mais uma vez.
ela era magra, tinha cabelos brancos bem curtos. sempre usava saltos que eu imaginava serem desconfortáveis. andava cambaleando, às vezes. e eu sempre a julguei.
de toda forma, mesmo julgando, sorria para ela quando a encontrava. não gosto de sorrir para todas as pessoas, mas para ela eu sorria. um sorisso bem largo. não sei porque.
depois de tantos sorrisos meus, passei a receber sorrisos dela também. gostei de recebê-los.
hoje, num sábado às duas da tarde, ouvi um estrondo forte.
era o fim dos sorrisos que acredito ter conquistado. e era o fim daquilo que, também acredito, ser um sofrimento disfarçado por meio de latinhas de cerveja compradas na lanchonete da esquina.
a primeira vez que ouvi seu nome, veio da boca de um bombeiro que falava ao telefone. eu não conhecia a minha vizinha do 6º andar. Mas seu fim foi na varanda ao lado da minha.
quero acreditar que fins e começos são obras do acaso. quero acreditar que o acaso é uma lógica cíclica, justa, cheia de sentido. quero acreditar que seu sofrimento foi recompensado de alguma forma, em outra parte dessa realidade. quero acreditar que do outro lado encontraremos sentido, que ela tenha encontrado sentido. quero acreditar que o outro lado existe.
eu quero.
mas não hoje. num sábado de verão em que nada fez sentido.
e que meus julgamentos desceram rasgando goela abaixo.