Tenho sentido vontade de falar sobre/escrever. Essa ultima ilustração que fiz foi muito importante pra mim – apareceu a vontade de fazê-la depois de muitos dias sem vontade de fazer nada. Fui pintando devagar, como que sempre com medo do próximo passo. Em um dos dias que a tirei da gaveta, já estava coberta de mofo; não chorei, por pouco, mas senti uma dor no coração como a de quem está perdendo algo de muito importante e não pode fazer nada a respeito. A aquarela é sempre essa caixa de grandes surpresas e imprevisibilidades. Pintei por cima. Vi que o mofo tinha corroído a folha, e vi que esse é o tipo de marca que camadas sobrepostas de tinta não apagam. E então eu tinha duas opções:

  1. Abandonar o navio, desistir da pintura e começar outra, toda de novo.
  2. Aprender a conviver com o erro – não, com o imprevisto, as marcas do papel – e continuar a pintar.

Pela preguiça ou pelo apego, escolhi a segunda opção.

É engraçado como a comunicação se constrói de maneiras inimagináveis. Pessoas dizendo o quanto tinham amado a ilustração, mas tinham amado mais o processo. Pessoas que não conheço, falando que o desenho e a mensagem a fizeram lembrar de sua falecida mãe. Um pedido de bordado. Uma mensagem inesperada de reconhecimento. Mais de dois mil dedinhos que apertaram duas vezes seguidas as telas de seus celulares para ofertar corações.

Isso me faz lembrar das vezes que acho que meu trabalho não tem importância, que não tem propósito. Que diferença faz, pro mundo, uma porção de retratos? Eu sempre quis fazer alguma coisa importante pro mundo, e pensar que nunca fiz me assombra. Mas depois lembro dos pequenos movimentos, da força das palavras, e – citando Fernanda, da potência do eco do que se diz baixinho. Eu acho que era muda, e agora tô tentando falar baixinho. Tentando entender os meus próprios processos criativos e o meu trabalho. Tentando associar o não abandono de uma pintura aos meus anseios de relacionamento. Tentando descobrir o que conviver com uma folha defeituosa pra sempre tem a ver com os meus níveis de tolerância comigo mesma. Tentando aprender a falar com estranhos. Tentando aprender sobre abrir portas, deixar as crianças brincarem no meu quintal.

Às vezes é preciso começar tudo de novo, sim. Mas às vezes a gente só precisa tomar um pouco de sol.

É engraçado falar disso pensando na ilustração de girassóis. E é engraçado pensar que pintei girassóis depois de um período de encubação. Deve ser algo daqui que insiste em buscar a luz. Deve ser algo daqui que tem sede de sol.

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