Puta sacada

Eu gosto de escrever.

Começou com eu gostando de ler e devorando livros durante um tempão. 
Por alguma razão um dia escrevi e descobri que escrever era tão bom quanto ler e ainda trazia aquele gostinho novo que até hoje eu acho que é a realização pessoal. [Se não for isso eu não sei o que é].

Eu escrevi diários da infância até a adolescência quando decidi que queria ser jornalista. O começo da adolescência traz uma certeza absoluta de tudo na vida e a sensação boa de que você pode fazer o que quiser e foda-se aquele mundo lá fora porque ninguém sabe de nada. Mas aí essa certeza desaparece. E surgem as inseguranças. Uma maior e mais profunda do que a outra.

Todo mundo sabe escrever. Por que é que alguém ia querer ler o que escrevo? E se me acharem burra? E se meu texto for mais um no meio de milhões de textos iguais, sobre os mesmos assuntos? Pra que vou perder meu tempo com algo sem importância?

E eu não queria mais ser jornalista.

Aí cresci, fiz uma faculdade qualquer que vai me dar um emprego qualquer no qual eu não sou tão boa assim mas faço tudo direitinho e vou ficando por anos e anos.

Até que um dia vem aquela vontade nenhuma de sentar num escritório com cheiro de mofo e pessoas que não tem nada a ver comigo. E a pergunta, por que é que eu estou aqui mesmo?

Ah sim, eu me lembro. É porque parei de escrever.

Foi lendo que me lembrei. Lendo a Aline Valek e outras meninas escritoras. Lendo minhas amigas, e outras pessoas que também gostam de escrever. Foi aos poucos crescendo aquele sentimento de que se você gosta de alguma coisa não tem razão pra deixar aquilo de lado.

Viajei longe pensando que se meus autores favoritos pensassem assim eu jamais os teria conhecido. E músicos, pintores, e Kiki de Montparnasse não seriam importantes para ninguém.

Eu não tenho nada de especial. Não sou diferente de nenhuma outra pessoa que sabe escrever, que sabe usar os pronomes e as vezes troca as preposições.

Escrevo porque gosto. Pra ninguém. Pra mim mesma.

Eu gosto de escrever.