A reinvenção de Wendy Whelan

“Se eu não dançar, eu preferiria morrer”, diz Wendy Whelan. Ouvi a frase com imediato sobressalto. “Eu mesma pensei que morreria se não dançasse”, lembrei.

Wendy tinha 46 anos quando, em 2013, os diretores Linda Saffire e Adam Schlesinger começaram a rodar o documentário Restless Creature: Wendy Whelan. No ano seguinte, ela completaria 30 anos no New York City Ballet, 23 no posto de bailarina principal. Entrou na companhia aos 17.

Ela sabia que não dançaria para sempre. Ao menos não os clássicos. Mas tampouco queria se aposentar naquele momento. Uma lesão no quadril fez com que os planos mudassem. Wendy chegou a questionar se conseguiria voltar aos palcos para se despedir.

Chegar aos 46 anos dançando profissionalmente e nas pontas é heroico. Muito se fala sobre a disciplina dos bailarinos, mas é preciso mais do que isso para se construir uma carreira. “Devoção” talvez seja a palavra mais próxima do trabalho de quem dança.

Na via do retorno, transcendência e, às vezes (talvez muitas vezes), crueldade. Mas é possível existir beleza na dor? Sim. Na dança? Quase sempre.

“Bailarinas são provavelmente deuses. Os melhores atletas”, diz o médico Marc Philippon, enquanto opera Wendy.

O que vem depois da cirurgia é o processo de recuperação, as dúvidas e a construção de um futuro. Tudo poderia ser mais doloroso, sofrido. Mas não é. A tenacidade vista em Wendy nos palcos, a solidez de seus músculos também estão presentes fora do teatro. A clareza de movimentos — uma das qualidades que a transformou em uma das maiores bailarinas de sua geração — é levada para a vida. Wendy é transparente e honesta.

O documentário segue um percurso muito parecido com a Jornada do Herói. Há o desafio, medo, testes, vitórias, crises, revelações e a redenção. Tem até um evento “sobrenatural”, com um falcão aparecendo na janela do apartamento de Wendy, em Nova York.

Assisti ao documentário em uma salinha com 25 lugares no Landmark Theaters West End Cinema, perto de Dupont Circle, em Washington DC. Tinham umas seis pessoas lá, todas mulheres. Duas estavam sentadas na mesma fileira que eu, e era engraçado perceber que reagíamos às mesmas coisas. “Bailarinas”, pensei.

Numa cena, Wendy chora e se diz envergonhada por estar “com 46 anos e ainda sonhar como uma adolescente”. Quantas vezes eu — Juliana — não senti isso nos últimos dez anos, pelo menos…

Então, o que fazer quando o vazio e a incerteza parecem prestes a te engolir? O que todo artista faz: criar.

Wendy desenvolveu um projeto independente e colaborativo, o Restless Creature (Criatura Inquieta, que acabou virando o nome do documentário). A bailarina convidou quatro coreógrafos contemporâneos para criarem obras e dançarem com ela. Os trabalhos foram apresentados nos Estados Unidos e no exterior. Agora, Wendy segue em turnê com seu trabalho mais recente, Some of a Thousand Words.

A despedida de Wendy do New York City Ballet ocorreu em 18 de outubro de 2014. Para o programa, ela escolheu dançar duas obras inéditas, um trio do britânico Christopher Wheeldon e um conjunto do russo Alexei Ratmansky.

Dançar o novo. Que simbólico.

Na última parte do documentário, Wendy reconhece que cresceu. Ela e nós descobrimos que fim também pode significar recomeço. E que alívio isso dá.

A gente acha que vai morrer, mas, como diz meu pai: “Juliana, morrer não é assim não”. Depois que descobrimos como dar um novo significado aos nossos sonhos, ninguém segura a gente. De bailarina aposentada, Wendy Whelan se reinventou e se transformou novamente em um dos nomes mais importantes da dança na atualidade. Quanta beleza.