Minha tia
Amo muito as minhas tias. Todas. Acho que é porque sempre me senti muito amada por elas também. Amo tanto tias que tenho várias tias postiças; tia que é prima, tia que é amiga da mãe. Mas hoje vou falar sobre uma delas, a Tia Maria Luiza.
Acho que toda mulher é uma força da natureza. Pra mim, a Tia Marle é uma ventania muito forte, seguindo sempre uma trajetória direta, não importa que obstáculos estejam à frente. Ventanias arrebatam, às vezes pra curar, às vezes pra machucar.
Minha Tia é o tipo de pessoa que nunca andou com a cabeça baixa. E olha que a vida tentou abaixá-la muitas vezes. Ficou viúva jovem, mas já tinha saído para a luta bem antes disso. Minha Tia é Fera Ferida. Também é fã do Roberto.
"Não vou mudar. Esse caso não tem solução. Sou fera ferida no corpo, na alma e no coração"
De manhã, no apartamento dela, a gente acordava com um vinil do Robertão tocando no último volume e ela cantando. Minha Tia Marle nunca esteve nem aí para o que os outros pensam. Eu sentava no banquinho na cozinha e esperava o pão com manteiga e o café com leite, olhando pra ela.
Era uma festa dormir na casa da Tia Marle. Eu podia tomar banhos demorados, usar os milhares de xampus diferentes que ela tinha, passar perfume bom e batom 24 horas. Essas eram as minhas rebeldias naquela época.
No quarto, ficava olhando ela colocar um monte de anéis e colares. Sentada na cama, ficava ouvindo a Tia falar e olhando ela se arrumar. Consigo lembrar de algumas peças com detalhes. Gosto de detalhes.
Apesar de ter tirado a carteira de motorista, ela nunca dirigiu. No ponto de ônibus, peidava e enfiava o dedo no nariz quando tinha vontade. Olha quem quer, fica perto quem quer… Eu era uma criança boba, preocupada demais com o que as pessoas iriam falar. Eu ficava roxa. Só hoje entendo a liberdade que a minha Tia sempre desfrutou com esses atos de rebeldia.
Há alguns anos (não muitos), eu, minha mãe e algumas tias — a Tia Marle no meio–jogávamos bingo na praça, num evento da igreja. Ganhei e falei baixinho: "Aqui". O homem que chamava as pedras não ouviu e cantou o próximo número. Outra mulher anunciou: "Aqui". A Tia Marle pegou a minha cartela e andou em direção à mesa, furiosa. E o que se seguiu:
Tia Marle: "A menina já tinha batido."
Moço da igreja: "Não. Ela (outra mulher) bateu aqui."
Outras pessoas: "Ela (eu, Juliana) bateu antes."
Eu, Juliana: "Deixa quieto, Tia. Deixa pra lá."
Tia Marle, gesticulando: "Deixa pra lá nada. A menina bateu antes."
Moço da igreja conversa com outras pessoas da igreja e diz: "A senhora aqui bateu."
Tia Marle: "Fala pra ele pegar a prenda e enfiar no cu."
Silêncio…
Bom… No fim, eu, a mulher e a Tia Maria Luiza saímos com uma prenda cada uma.
A Tia Marle sempre falou com a maior naturalidade sobre bunda, cu, pinto, vagina (prexeca, pixica, entre outros apelidos), mesmo na frente das crianças. Ah, os palavrões que a gente não podia repetir…
Teve a vez no cemitério, onde meus avós maternos estão enterrados. Tem uns pés de amora lá. Eu estava do lado da Tia Maria Luiza, que comia as amoras, quando outra tia chegou e a repreendeu. A Tia Marle deu de ombros: "Tá docinha".
"Eu tenho tanto pra lhe falar, mas com palavras não sei dizer"
Meu Tio Davi, marido da minha Tia Maria Luiza e pai da minha prima, morreu antes de eu nascer. O tio que conheci era o namorado dela, o Tio Claudio. Os dois levavam eu e meu irmão para cima e para baixo, a viagens, restaurantes… Eu me emociono muito falando sobre eles, principalmente sobre um episódio.
Era meu aniversário de 15 anos. Não iria ter festa, mas, no fundo, eu esperava algo especial naquele dia. Sempre fui muito resiliente, mas queria tanto uma surpresa. Era fim de tarde e eu estava muito, muito triste. Então, meu Tio Claudio buzinou o seu Gol vermelho. Quando olhei, ele já estava entrando no quintal com um buquê enorme de rosas vermelhas. Ele e minha Tia me deram também um par de brincos e uma correntinha. Pouquíssimas vezes os usei. São preciosos demais pra mim…
A visão que tenho sobre a minha Tia ainda é a mesma da minha infância. Sou pequena e a vejo de baixo para cima, grande do meu lado, altiva. Minha Tia nunca deixou ninguém colocá-la num lugar que ela não quisesse. É ela quem manda.
Na minha família materna existe um amor bruto. É um amor meio indomável. A gente ama demais. Às vezes, é até um amor difícil de carregar. Por isso, a distância física é tão dolorosa.
"Quantas vezes eu até chorei, pois não pude suportar"
A Tia Maria Luiza anda meio fraquinha por esses tempos. É a vida enchendo o saco dela de novo. Mas minha Tia é uma veterana, uma resistente. Teimosa, como todo bom taurino. Sabe o que ela vai dizer pra vida? "Vai pra puta que pariu".
"E que tudo mais vá pro inferno"
A minha preferida do Roberto…
"Tudo estava igual como era antes. Quase nada se modificou. Acho que só eu mesmo mudei"
