A arte de se consolar

Juliana Rodrigues
Nov 4 · 3 min read
Source: Instagram @recto_verso

Estava eu em um vôo lotado em direção à Guarulhos. Era um vôo bem cedo pela manhã, daqueles que você observa em volta e vê diversas pessoas tentando conter o peso da cabeça sonolenta no pescoço. E como a vida tem dessas coisas, para curar a apatia do vôo um menininho de colo resolveu abrir o berreiro. Vocês sabem aquele choro sem lágrimas? Que no fundo é só gritaria, um misto de tédio ou de desejo frustrado. No primeiro momento fiquei com dó, afinal quem resiste a um beicinho de um menino que devia ter por volta de 3 anos? Mas depois a situação me fez questionar quando foi que aprendemos que gritar não ia nos trazer aquilo que queremos. Quando foi que espernear, chorar e fazer beicinho parou de funcionar? Acredito que algumas pessoas nunca aprendem, continuam bebês que gritam se não aceitam a regra do jogo. A política é um bom exemplo de como existem pessoas que procuram convencer pela forma do discurso, não pelo seu conteúdo. Que pena, grandes birrentos. Mas vamos retomar o fio da meada, política é um tema para outra conversa. Acho que posso dizer que as frustrações me fizeram forte na vida, me ensinaram que as vezes nem tudo é como eu pensava que deveria ser. Mas como demorou pra aplacar a minha revolta de que o mundo não era como eu esperava! Oras, que tipo de absurdo é esse que o planeta Terra não se curva à força do meu beicinho? Quando eu era adolescente eu costumava chorar na frente do espelho, é como se eu tivesse a vã esperança de que a menina ali refletida fosse se materializar e me dar um abraço. Essa memória me é tão importante pois acredito que foi o momento que eu percebi que ninguém ia aplacar minha dor tão plenamente quanto eu mesma. É claro que dai ainda transcorreram anos de psicanálise, nas sessões em que o sofá (o divã está um pouco démodé) era meu bote salva vidas para aquele oceano de lágrimas que eu derramava sem saber muito o porquê. Sempre estamos falando do choro que liberta o peito, que desafoga a alma, mas nos esquecemos do choro egoísta: herdeiro do beicinho de quando o mundo simplesmente não funcionou da nossa forma. E o menino do avião? Eventualmente ele se acalmou, deitou no colo da mãe e, com a chupeta na boca, se distraiu com o controle remoto da TV da cadeira da frente. Não há nada melhor para curar o choro do que um bom colo da pessoa amada. E eu? Aprendi com os colos que recebi ao longo da vida: da minha mãe, da minha avó e do meu avô. Depois que a gente cresce, essa sensação incrível de ouvir o coração e sentir o calor tranquilizante de outra pessoa vai para dentro de nós. Agora, em qualquer momento que eu precisar, eu tenho o colo da menina que me olha no espelho. Vocês ficariam chocados em ver como ela cresceu. Pronto, Juliana, tá tudo bem, já passou.

    Juliana Rodrigues
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