Caio e Letícia

(Pensamentos de Caio)

Muitos meses antes ela havia me dito que eu não sabia amar. Aquilo ficou na minha cabeça. A memória dela. Os cabelos castanhos, os olhos brilhantes, os lábios pintados com um gloss que cheirava a morango. Os dentes brancos , um sorriso torto. A camiseta desbotada e o shorts curto. Os chinelos alaranjados. Ela me ensinou a amar durante aqueles meses. A cada segundo desde que a conheci.

Eu sou um cético. Não acredito em amor a primeira vista. E definitivamente não acredito em finais felizes. Ela me dizia que isso ia me fazer ser um velho ranzinza e amargurado. Um rabugento de bigode branco. Eu perguntei se ela ainda iria me amar, quando eu fosse mesmo um velho ranzinza de bigode branco. Ela me abraçou, com os braços pequenos, senti o cheiro do shampoo dela, olhou pra mim e disse: claro! Sempre!

É estranho isso de amar. Olha, não sou ainda o velho ranzinza e amargurado. Eu acho que existe o amor Se você for procurar, existem pesquisas e mais pesquisas sobre o assunto. Só acho estranho. Nós ficamos enlouquecidamente cegos. Bêbados com o sabor da outra pessoa. Ninguém consegue ser racional quando está apaixonado. Você consegue? Se sim, me ensine!

Eu não sabia amar porque eu nunca havia amado. Não até encontra-la. Eu já estava no começo dos trinta e ela era o tipo exato de garota com quem eu não saía. Metida a esperta. Incrivelmente irritante. Tinha que estar certa sobre tudo, sempre, e mesmo que estivesse errada não dava o braço a torcer. Argumentava incessantemente até eu desistir da discussão e assumir que havia perdido o debate.

Usava óculos maiores do que o necessário o tempo todo, mesmo que só precisasse pra ler. Ela doce e madura, mas tinha essa vibe adolescente ainda, mesmo estando com 27. Sim, ela era alguns anos mais nova. Queria ser independente, mas morria de medo de filmes de terror e de baratas. Ela tomava cerveja como se fosse água, mas não suportava cheiro de uísque. Sabia falar de poesia, desenho animado, músicas dos anos 80 e dançar forró. Ela era tudo que eu não procurava e por isso era perfeita pra mim. Tinha feito jornalismo e estava no segundo ano de publicidade.

Tinha perguntas sobre a origem do universo, mas adorava ler sobre signos. Fazia yoga e não sabia cozinhar nem um miojo. Vivia a base de pipoca e delivery. Ela era tudo que eu não queria, e por isso eu a quis tanto.

Quando eu a pedi pra morar comigo, três meses antes, ela me abraçou tão forte que quase caí, falando um sim alto que foi como um calmante forte. Eu estava nervoso e tinha tomado um remédio para dor no estômago, de tão ansioso. Saímos pra dançar aquele dia. Ela usou a blusa favorita e me fez comprar um pijama novo. Trouxe a mala, uma planta semi-morta, Diego (o gato) e uma TV maior que a minha.

Ela me deixou numa manhã de domingo. Acordei com o Diego miando e levantei meio sonolento. Ela havia deixado um bilhete junto com com um pacote de ração pra gato: “Sinto muito, não consigo mais”.

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