Meu trabalho não é quem eu sou.

Quando o dia tem 24 horas e você passa sete ou oito trabalhando, mais 7 ou 8 dormindo(se você tiver sorte), fora o tempo das obrigações e atividades da vida adulta (como ir ao mercado, lavar a louça e cozinhar o jantar), não sobra muito tempo livre pra você lembrar que você não é o seu trabalho, afinal, a maior parte do tempo que você passa acordado você está indo pro trabalho, no trabalho, voltando do trabalho ou pensando no trabalho.

Acho que isso não é um problema pra quem escolheu a carreira dos sonhos, mas, pro resto do mundo, onde o trabalho é um meio de pagar as contas, conseguir diferenciar o que você faz pra viver de quem você é não é fácil e pode ter consequências trágicas.

Eu não sei o que eu quero ser quando eu crescer. O problema aqui é: eu já cresci. Eu estou do lado errado dos 25 anos sem fazer a mínima ideia de qual é meu sonho. Só que, nas minhas crises existenciais de todos os dias, recentemente, me lembrei de uma coisa que meu pai me disse um tempo atrás, provavelmente quando eu estava surtando por não saber o que fazer do meu futuro: meu trabalho não tem necessariamente que ser meu sonho, meu trabalho tem que ser um meio de alcançar meus sonhos.

Por algum motivo a nossa geração colocou essa obrigação em nós mesmos de nos completarmos em todos os aspectos. O emprego perfeito, na casa perfeita, na cidade perfeita, com o(a) parceiro(a) perfeito(a) e eu estava entrando em parafuso pelo simples fato de não ter uma vocação clara e evidente do que tenho que fazer com a minha vida. A vida não é perfeita, já passou da hora de nós entendermos isso. A gente nunca vai ter tudo e tá tudo bem.

A nossa insana e obsessiva busca pela felicidade completa está nos destruindo e nos deixando deprimidos. Nós nos sentimos constantemente insatisfeitos imaginando o que de maravilhoso pode estar nos esperando enquanto estamos aqui.

Acredite em mim, eu não estou dizendo que devemos desistir de nos encontrarmos, desistir de buscar a felicidade, sossegarmos e aceitarmos nosso destino infeliz e devastador em um emprego chato, em uma cidade chata, com pessoas chatas. Só estou dizendo que não devemos permitir que isso nos corroa por dentro, não devemos permitir que isso nos consuma e nos sugue. Nós temos um emprego. Atualmente, isso já é mais do que muita gente tem. E eu odeio ser a pessoa que diz: “olha, vamos pensar pelo lado positivo”, porque, sinceramente, eu não sou essa pessoa mas, hoje, é isso que eu tenho pra dizer: “vamos pensar positivo”.

Nós não somos os nossos empregos, nós somos muito mais que isso. Nós não devemos limitar o valor das nossas vidas a termos ou não descoberto com o que queremos trabalhar. O que queremos ser quando crescermos não deveria ser uma pergunta relativa ao que você quer trabalhar, deveria ser uma pergunta referente ao que você quer ser como ser humano. Eu ainda não sei o que quero ser quando crescer, mas eu sei que é muito mais do que algo que vai estar no meu currículo.