Passeio

O trem parou na plataforma. Eu hesitei antes de entrar, talvez um momento de lucidez, meu subconsciente surgindo e por um segundo gritando com toda a força dentro da minha cabeça: “Nãooo!”.

Entrei no vagão e segurei na barra mais próxima da porta. O vagão estava razoavelmente vazio mas eu estava muito ansioso pra sentar. Observei a cidade passar rápida pela janela. Por um segundo minha mente clareou. Eu só conseguia ouvir a música no fone de ouvido e observar a paisagem cinza de prédios.

Me perdi em pensamentos vazios pelo que pareceram horas, mas foram só alguns minutos de desatenção. Ouvi o nome da estação. É, é agora.

Desci do vagão agradecido por não ter ninguém para me empurrar tentando abrir passagem para dentro do vagão do qual estava saindo.

Arrumei a alça da mochila, que machucava meu ombro, apesar dos anos de prática carregando aquela mesma mochila esverdeada pra todo canto. Saí da estação e decidi que não ia pegar um ônibus. Apesar do céu nublado, o clima estava agradável e decidi ir andando.

Olhei no celular pra conferir as horas e constatei que ainda tinha tempo de sobra. Parei comprar uma coca, que estava gelada e bebi sentindo aquele ardor granitificante de refrigerante com muito gás. A ansiedade havia passado e eu estava num estado de êxtase.

Passando na frente de um prédio espelhado novo, um gigante no meio dos prédios comerciais antigos ao redor, observei por uns estantes meu reflexo. Cabelos louros acinzentados que escapavam na frente da touca preta. Um ser humano magro e de olhos profundos azulados. Eu nunca fui muito alto, mas isso nunca foi um problema. Minha roupa estava meio amarrotada, mas parecia ser algo intencional, não o relaxo e preguiça que eram. O jeans rasgado era a roupa mais confortável que eu tinha. Não estava frio, mas o moletom cinza-escuro me fazia sentir bem. É, um cara normal de 17 anos. Nenhuma surpresa aqui. Sorri para meu reflexo no prédio quando percebi as gotas de chuva que começavam a cair.

Andei algumas quadras na chuva, sem medo de me molhar, a ansiedade e excitação crescendo dentro de mim, e eu estava apreciando cada momento sem pressa.

Cheguei na entrada do prédio e o porteiro balbuciou um bom dia sonolento. Decidi subir as escadas, não estava com paciência para esperar o elevador. Cheguei no apartamento 302 e busquei a chave na mochila. Abri a porta, o apartamento cheirava a cigarros e cerveja velha. Ele estava deitado no chão, desmaiado pela bebida da noite anterior.

Coloquei a mochila no sofá e remexi as coisas até achar o que estava procurando.

Conectei o celular no aparelho de som e minha música preferida no máximo.

O barulho do tiro foi praticamento todo abafado pela música e a almofade que coloquei na frente do rosto dele. Guardei meu celular no bolso e decidi largar a arma lá. Antes de sair, peguei o aquário do peixinho dourado em cima do armário da sala. Ninguém ia lembrar de alimentar o pobre bichinho por uns dias.

Murmurei um tchau para o porteiro enquanto ele abria o portão, a chuva havia passado e o céu parecia menos cinzento. Andando na rua molhada pela chuva, com o céu azul, me perguntava onde eu podia comprar comida pra peixe.

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