Sexta chuvosa.

Eu tinha acabado de ligar pedir uma pizza quando o interfone tocou. Eu não estava esperando ninguém e me irritei com a possibilidade de uma visita inesperada, mas a voz do outro lado era conhecida e fez meu coração disparar.

“Abre o portão, tô derretendo na chuva aqui”.

Um minuto depois ela estava parada na minha porta, cabelo todo molhado, pingando água da chuva no chão do corredor. Olhou pra mim e abriu um sorriso enorme. Tinha uma garrafa de vinho na mão e me pediu pra entrar.

Deixou os tênis molhados no corredor enquanto entrava e eu procurava uma toalha no armário. Tirou a roupa molhada, pegou a toalha e foi direto para o chuveiro. Me deu um beijo gelado na bochecha antes de fechar a porta do banheiro: “me empresta uma roupa? Vim correndo, tenho novidades, precisava te ver”.

A pizza chegou e eu acabei dando mais gorjeta do que o necessário pro entregador, que me olhou com a cara estranha, percebendo o ar de ansiedade no meu rosto. Separei uma camiseta e uma calça de moletom e deixei penduradas na maçaneta do banheiro.

Alguns minutos depois ela entrou na sala, vestida com a minha camiseta de banda favorita e a toalha enrolada no cabelo. Se jogou no sofá e pegou um pedaço de pizza.

“Você não vai acreditar! Me contrataram, eles realmente me contrataram!”

O sorriso dela iluminou a sala, e eu não consegui pensar em nada melhor pra dizer além de que “Que ótimo, você merece!”.

“Eu não sei o que faria sem você! Eu só consegui porque você me fez tentar.” — ela falava enquanto mordia um pedaço da pizza com uma mão e tentava abrir a garrafa de vinho com a outra, correndo o enorme risco de derrubar vinho pelo meu sofá todo.

Depois de eu pegar a garrafa e finalmente conseguir servir dois copos de vinho, o qual eu não tinha intenção nenhuma de tomar, ela soltou o cabelo e começou a contar como tinha sido a entrevista.

Eu só conseguia pensar como era frustrante que ela nunca saberia como eu realmente me sentia. Os cabelos louros descoloridos molhados que ela se recusava a pentear estavam jogados no rosto, o perfume de sabonete e shampoo preenchiam a sala. Virei o copo de vinho, e coloquei outro, enquanto ela contava, entusiasmada, sobre o dia, entre um pedaço de pizza e outro.

A garrafa de vinho havia acabado e eu estava quase caindo de sono no sofá. Ela tinha terminado a história e estava entretida com algum programa que eu não gostava na TV. Levantei e peguei uma coberta no guarda-roupas. Dei pra ela e disse que ela podia ficar se quisesse. Eu tinha que acordar cedo, então ia me preparar pra dormir.

Ela levantou, me olhou nos olhos, tocou no meu braço e eu quase pude sentir o tempo parar. Os olhos dela tinham pintinhas pretas em volta da pupila se você encarasse bem de perto. Ela passou a mão nos meus cabelos e me beijou com um beijo doce, depois, falou numa voz tremida e quase inaudível: não vou mais esperar você criar coragem pra me beijar, Maria Eduarda.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.