Sombras

Prólogo

O lugar era não era grande, mas era aconchegante. Não parecia ter sido feito para alguém morar, mas dava conta do recado. Estantes cheias de livros cobriam todas as paredes com exceção uma preenchida por um grande espelho de bordas de madeira e uma lousa cheia de inscrições indecifráveis. Isso dava ao lugar um ar de biblioteca.

A sala, o quarto e a cozinha não eram separados por paredes, identificáveis apenas pela separação dos móveis. Dois pufes grandes coloridos e um sofá amarelo-mostarda aconchegante coberto de almofadas compunham a sala.

No lugar da TV, uma estante coberta de livros antigos, que dividiam espaço com castiçais enormes de metal. Do lado oposto, a cozinha era composta por um fogão, uma geladeira pequena, uma mesa de madeira com quatro cadeiras, uma pia e alguns armários de madeira na parede.

O quarto e o banheiro ficavam em lados opostos do cômodo, sendo que o que o quarto era uma cama, um armário de cinco gavetas e um criado-mudo. Fora isso, o espaço vago entre a sala e o quarto era coberto por um grande tapete fofo, onde várias almofadas ficavam jogadas descontraidamente.

Um observador qualquer, que se distraísse pela excentricidade do cômodo, poderia deixar de notar a falta de janelas e portas no ambiente. Uma vez que se notasse tal fator, a sensação de aconchego era substituída por um apavoramento momentâneo.

Porém, os olhos mais atentos perceberiam a corda grossa amarrada numa pilastra de madeira próxima à sala. Quando puxada, a corda abria uma grande janela no teto, quase do tamanho de metade da casa e uma escadinha descia para que se pudesse subir.

Subindo a escada até o topo é possível ver além do horizonte. A casa estava no meio de uma floresta que parecia não ter fim, em cima de um morro alto. No topo da casa, uma mesa, algumas cadeiras e um telescópio.

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O despertador de corda tocou num barulho agudo e estridente. Celina abriu os olhos na escuridão e piscou repetidamente, afastando as imagens dos seus sonhos. Bateu com a mão no objeto irritante que continuava a fazer barulho na cabeceira.

Esticou os braços, se alongando enquanto bocejava preguiçosamente. Quando sentou na cama e seus pés tocaram o chão gelado, sentiu-se tentada a voltar a dormir. Afastou o pensamento da mente, a noite tinha poucas horas e ela muitas coisas para fazer.

Colocou um par de chinelos e se dirigiu à sala, puxou a corda da claraboia até o final e deixou o ar noturno preencher a casa. A luz da lua iluminou a casa. O céu estava estrelado e limpo. Respirou profundamente. Sentiu-se acordada e animada.

“Talvez seja hoje” — falou pra si mesma com animação.

Tirou o pijama e se dirigiu ao banheiro para tomar banho, no meio do caminho se deparou com sua imagem no espelho enorme. O ar gelado fez seu corpo arrepiar. Observou por um estante sua própria imagem. Os cabelos ruivos crespos abaixo dos ombros, os olhos azuis quase violetas, as sardas que começavam no seu nariz e desciam pelo seu colo e ombros, a pele branca quase transparente. A luz da lua lhe dava um ar meio fantasmagórico, mas ela não se importava.

Depois do banho, colocou um par confortável de jeans, uma camiseta listrada básica, seu all star e tomou um copo de leite com achocolatado.

Pegou os castiçais que estavam na estante da sala e os organizou no espaço aberto em volta do tapete. Cada movimento calculado, como se os tivesse feito mil vezes antes, talvez realmente tivesse, pelo menos umas quinhentas. Quando achou que havia acendido velas o bastante foi até a corda e fechou a claraboia. Sentiu um aperto no peito ao ficar no cômodo fechado, agora iluminado só pelas velas. Respirou fundo.

Ficou em uma das bordas do tapete.

“Se alguém me visse agora ia achar que eu sou uma bruxa fazendo um feitiço ou uma louca. Ok, talvez eu seja mesmo uma louca.” — riu sozinha pensando na ideia.

“Ok, é como num sonho, Celina, se concentre!” — falou pra si mesma tentando criar alguma segurança.

Observou a sombra que havia na sua frente. Uma imagem da sua silhueta que só pela sua existência parecia zombar dela. Riu de si mesma por sentir raiva de sua própria sombra.

Concentrou seu pensamento o máximo possível. “É como em um sonho”, repetia mentalmente.

Olhou fixamente para a sombra na sua frente, fechou os olhos, respirou fundo, relaxou o corpo e se jogou para frente. Durante um milésimo de segundo sentiu seu corpo flutuar no ar. No milésimo de segundo seguinte estava com a cara estatelada no tapete, xingando com todas as forças, segurando o nariz que havia batido no chão e começou a sangrar. Sentou e colocou a outra mão na cabeça e a sentiu latejar.

“Que ótimo! Isso vai deixar um galo!”- bravejou pra si mesma.

A camiseta listrada estava manchada de sangue, ela havia enfiado lenços de papel no nariz para conter o sangramento, tirado os tênis que estavam incomodando e prendido o cabelo ruivo em um rabo de cavalo. Quatro horas depois, ela ainda estava ali. Se jogando contra o chão. O frio aumentara com o começo da madrugada, então ela colocou um moletom amarelo sobre a roupa.

“Vamos, Celina, você consegue” — sussurrou para si mesma entre desespero e exaustão.

Uma lágrima escorreu gelada pela sua bochecha, sua cabeça latejava e ela podia sentir que seu nariz voltaria a sangrar.

“Vamos, você precisa conseguir” — sua voz agora soava como uma pequena súplica para si mesma.

Ela encarou sua sombra mais uma vez, expirou pela boca todo o ar que conseguiu, deixando os pulmões vazios, fechou os olhos, as lagrimas cintilando com a luz das velas que já estavam quase no fim, limpou sua mente o máximo e soltou o corpo em direção ao chão. Por um milésimo de segundo se sentiu flutuar, como em todas as outras vezes, mas então, sentiu como se estivesse no fundo do oceano. Abriu os olhos e mal pode conter o sentimento que surgiu, ela havia conseguido. Tentou se mover para frente, como se estivesse nadando, mas não conseguiu. Era tudo tão lindo. O Universo. A escuridão completa, mas com tanta energia, ela podia sentir toda a energia, vinda de toda parte. Vida em toda parte. Ela piscou e pode sentir seu corpo bater pesado contra o tapete fofo. Ela havia conseguido. Ela tinha dado o primeiro passo. Ela era mesmo uma deles.