Um conselho.

Juliana Rosolen
Nov 6 · 4 min read

Ser feminista não é fácil. É cansativo, doloroso e — muitas vezes — solitário.

E é, principalmente, uma questão de escolhas. Todo dia, o tempo todo. Cada atitude é pensada, analisada, refletida. Todo mundo tem atitudes machistas. O feminismo é um processo de desconstrução e, principalmente, de construção diária.

Eu leio, estudo, converso, assisto palestras, documentários. Mas, existem situações na vida para as quais não existe um “manual feminista” de como agir.

Nos últimos dias uma dessas situações surgiu, e eu realmente não achei resposta para a minha dúvida existencial em livro nenhum.

Num rolê na casa de uma amiga, me interessei por um amigo em comum. Ele é alto, engraçado e gosta de livros de ficção.

Eu sempre falo que me apaixono todo dia por alguém, mas brincadeiras e amores platônicos à parte, é REALMENTE difícil eu me interessar por alguém de forma concreta.

Papo vai, papo vem, trocamos números e eu comecei a sentir aquela sensação incômoda e satisfatória de borboletas no estômago. Só que, num acaso do destino e do universo (que é cruel e gosta de zoar com a cara da gente), eu descobri que o tal do moço (simpático, alto e engraçado, que gosta de ficção científica) votou no Bolsonaro.

Em uma mensagem para um dos meus melhores amigos, falei da minha surpresa e da minha tristeza com a descoberta.

Ele, que sabe muito bem que minha vida amorosa é mais dramática que final e temporada de Grey’s Anatomy, me disse: FODA-SE em quem ele votou.

Eu sei que meu amigo falou com a esperança no coração de que o universo seja bondoso comigo e eu me apaixone, case, tenha 5 gatos e 7 cachorros com alguém que vai gostar da minha companhia e me fazer bem.

Mas, apesar disso, o conflito interno com o interesse por alguém que votou no Bolsonaro (pra mim) é mais profundo do que isso. É sobre ir contra os meus princípios.

Só pra constar, eu não sei se existiu reciprocidade no interesse e, como a ideia toda foi só idealizada, não importa (no momento) se havia ou não interesse da parte dele.

A questão é, além de tudo, o quanto eu estaria disposta a deixar meus princípios de lado pela “ideia” de conhecer alguém.

Então, eu percebi: não tenho mais paciência pra esse tipo de coisa. Dramas amorosos sempre foram uma grande parte da minha vida porque (num ato de autossabotagem) meu cérebro gosta de se apaixonar. Dia sim dia não, eu viro pra algum amigo e falo “tô apaixonada”. E toda vez é por alguém novo. Eu me apaixono por sorrisos, piadas, olhares. Eu me apaixono facilmente, mas não desapaixono tão facilmente assim.

Hoje outro amigo me perguntou se eu já superei a última paixonite da qual falei a respeito (e pra ser sincera, eu nem lembrava sobre quem ele estava falando) e se estou pronta pra próxima. Eu disse, com sinceridade, que ainda não superei nem a minha paixão do ensino médio (meu primeiro amor platônico). Assim, parei pra pensar nesse amor adolesce que eu tive. Ele nunca foi correspondido. Sempre foi uma ideia na minha mente sobre a qual eu não tomei nenhuma atitude. E, fatidicamente, foi o melhor relacionamento que eu tive. Uma ideia que nunca se concretizou e que é tão ficcional que minhas quedinhas por personagens dos livros são mais realistas.

Numa súbita reflexão, parei pra analisar mentalmente os sacrifícios que fiz nos anos seguintes em prol de fazer relacionamentos darem certo. Eu sacrifiquei ideias, princípios, dignidade. Bati o pé para mim mesma ( e para amigas incríveis que tentavam me abrir os olhos) me recusando a admitir certos abusos que tinham acontecido comigo em relações desequilibradas, nas quais submissão e insegurança sempre foram traços marcantes do meu papel em relações amorosas.

Mantive relações tóxicas durante muito tempo sem nem ao menos conseguir enxergar que eram tóxicas. Fui tóxica também ( mais vezes do que gostaria de admitir).

Só que, eu estou chegando aos 30. Eu não sou mais uma adolescente de 15 anos, ingênua, insegura e desesperada por validação. Óbvio que eu ainda sou muitas dessas coisas. Eu ainda choro antes de dormir porque um colega, num comentário inocente e sincero, disse numa conversa de fim de noite que eu não sou tão “bonita” como algumas das minhas amigas. Ainda olho desesperada para o espelho querendo mudar completamente minha aparência quando tenho que ir a algum evento que me obriga a sair da minha zona de conforto.

Como uma feminista em construção, eu finalmente posso ter clareza em relação a certas coisas, maturidade pelas experiências que a vida me proporcionou e confiança o bastante para pensar: relacionamentos são complicados. Opiniões variam e o mundo é feito de debates e ideias variadas. Tudo isso é verdade.

Mas, se existisse um manual do feminismo, e ele pudesse ser resumido em um parágrafo, acredito que seria algo como:

“Nunca se diminua por ninguém, nunca vá contra seus princípios, tente sempre agir com amor e compreensão. E, lembre-se: faça tudo o que estiver ao seu alcance para não se apaixonar por quem não luta (ou nem ao menos compreende A SUA LUTA) por um mundo igualitário e justo”.

Parece que, no momento, isso é um conselho sábio.

    Juliana Rosolen

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