Uma carta pro Universo.

Juliana Rosolen
Nov 7 · 3 min read

Querido Universo,

Escrever requer coragem. Muito mais coragem do que eu tenho, pra ser sincera.

Eu nunca tive vergonha de assumir que sou uma pessoa medrosa. Eu tenho um medo irracional de altura, de morcegos e de tubarões. Não entro na represa que tem aqui na minha região nem à força e odeio entrar no mar (o conceito de ir pra praia, curtir as férias com os pés descalços na areia, por si só, me apavora).

Tenho medo de andar na rua à noite. Medo de estar em qualquer lugar aberto na cidade de São Paulo e um pavor terrível de ficar de biquíni na frente de pessoas que eu não conheço (e das que eu conheço, se eu assumir medos e inseguranças que eu mesma me recuso a reconhecer).

Eu quero pintar o cabelo de colorido desde os meus 12 anos e, com 29, ainda não tive coragem de marcar uma hora no salão e voltar com as madeixas rosa chiclete. Demorei 15 longos anos para ter coragem de fazer um piercing no nariz. Por medo não da dor, mas do conceito em si. Tomar atitudes requer coragem, e eu sempre soube que nunca pertenceria à Grifinória.

De todos os meus medos, publicar meus textos é o maior deles.

Vira e mexe, quando alguma pessoa muitíssimo simpática me diz que eu deveria publicar mais o que escrevo, que deveria mandar os livros que tenho guardados para editoras, eu costumo brincar, dizendo que prefiro continuar escrevendo em segredo e ser uma escritora na minha mente — que nunca publicou nada — do que escutar de alguém que trabalha na área me dizer que eu não tenho talento. Escrever é uma das poucas coisas que eu realmente gosto de fazer, e se me tirarem isso, não sobraria muito.

Tem sido uma semana difícil. Tem sido uma vida difícil, se eu parar pra pensar. Não um vida difícil realmente. Eu tenho pais incríveis que sempre me deram todo o apoio do mundo, amigos extraordinários que se iludem achando que eu sou uma pessoa melhor e mais talentosa do que realmente sou, e vivo uma vida bem classe média, com um emprego estável, gatos fofinhos e as duas melhores (e mais animadoras) cachorras do mundo.

No entanto, em dias como hoje — muito mais comuns do que eu desejaria que fossem — eu me sinto cansada, desesperançosa e perdida. Como se minha vida fosse uma série de baixo custo da Netflix, passando em velocidade acelerada, e eu fosse uma expectadora gritando inaudivelmente com a personagem principal para ela FAZER ALGUMA COISA. QUALQUER COISA.

Ela nunca faz nada, como se não fosse a protagonista, ela é apenas uma personagem secundária observando as cenas incríveis de personagens mais interessantes.

Hoje, na hora do almoço, eu limpei a cozinha, me tranquei no meu quarto, e, presumivelmente, chorei até minha garganta doer.

Antes de mais nada: meus remédios estão em dia e na dosagem, eu não estou de TPM e não aconteceu nada realmente trágico nos últimos tempos, então, meu vazio e meu desespero não são resultados de depressão clínica ou de hormônios agitados. É a minha personalidade. E tudo bem, com os anos (e muita terapia) eu consegui aceitar que tristeza é uma coisa natural e humana, e que isso não me torna um ser humano fraco.

No entanto, torna a vida cansativa e me faz ter uma tendência incrível a me isolar. Nessas fases, eu tendo a sentir solidão. O que me faz querer sair e socializar, o que me faz sentir que não me encaixo. O que me faz querer me isolar. Problemático, não?

Então, num ato de revolução pessoal (e evolução, eu espero), eu decidi impulsivamente (porque todas as boas decisões que tomei na vida foram impulsivas e impensadas, o que não dá tempo pro medo se manifestar) decidi que — na medida do possível — vou publicar o que escrevo. Sem medo de como as pessoas vão me julgar quando lerem, sem medo de expor toda a bagunça que é a minha mente e, principalmente, sem medo de ninguém ler. Porque, maior que o medo de alguém ler algo que escrevi e julgar ou me criticar é o medo de NINGUÉM nunca ler o que eu tenho a dizer. Eu ainda odeio altura, e não entro em água nenhuma se não conseguir ver meus pés mas espero, sinceramente, que daqui alguns anos, eu possa dizer que não tenho mais medo de escrever (ou, pelo menos, que consigo agir além do medo).

Beijos de luz, amor e coragem,

Ju Rosolen.

    Juliana Rosolen

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