Um manifesto contra a distorção da espiritualidade

Desde que a espiritualidade entrou na minha vida, venho passando por várias fases.

Inicialmente muita coisa ressoou dentro de mim. Passei a acordar mais cedo para meditar, questionar absolutamente tudo ao meu redor, virei vegetariana, abri mão de querer planejar tudo, passei a estudar sobre espiritualidade etc. Até que percebi que estava tendo dificuldade em me relacionar com outras pessoas que não estavam passando pelo mesmo processo que eu. E isso não estava me fazendo bem. Eu não queria meu despertar me afastasse de tudo que conhecia e gostava.

Passado um tempo, ainda venho lutando com o equilíbrio entre o mundo interior e o exterior. Entre o conceito e a prática. Entre entrega e ação. Entre confiança e abstenção.

Sempre fui controladora, planejadora, organizada. Desta forma, a entrega é algo totalmente anti-natural para mim e, talvez por isso mesmo, uma ideia bastante tentadora. Quem não quer abrir mão dos percalços de querer controlar tudo pelo encanto de simplesmente “deixar acontecer”?

Mas devemos ter cuidado em como interpretar esses conceitos. Estamos em um mundo físico que é feito não só de energia, mas também de ação.

A espiritualidade pode nos fazer voltar muito para nós mesmos e nos esquecermos de nossa atuação física no mundo.

Comecei a me perguntar recentemente como aplicar toda essa evolução que sinto dentro de mim no mundo real.

E é algo muito desafiador. Me dá angústia, pois ainda não consegui encontrar uma resposta.

Como manifestar através de ações tudo aquilo que acredito?

É muito comum ler por aí que se “você sente que não faz parte desse mundo é porque você veio para este mundo para ajudar a criar um novo.”

Concordo. Faz sentido.

Mas como ajudar a criar esse novo mundo? A energia da intenção é muito poderosa, mas ainda precisamos transformá-la em ação para colhermos resultados.

Essa é minha maior dificuldade. Essa transição entre mundo interno e mundo externo é complicada. Tudo é muito bonito na teoria, mas a prática ainda é muito obscura para mim.

Ok, devemos implementar isso em nosso dia a dia. Com nossa família, nossos amigos, no nosso atual trabalho.

Mas eu quero mais. Sinto que vim aqui para mais. Quero enxergar, ouvir, sentir, o impacto que tô fazendo no mundo. E isso não é meu ego não, é meu lado prático, meu lado objetivo, que está vindo a tona. Cansei de domá-lo. Cansei de acreditar que isso era meu ego falando. Não, não é meu ego.

Cuidado com os “mimimis” que você pode estar repetindo para si mesmo sob a forma de espiritualidade.

Cuidado ao parar de assistir TV e ler as notícias pois você “não quer ser contaminado energeticamente”.

Cuidado ao parar de assistir filmes bobos que você gosta porque “não irão te ajudar a evoluir”

Cuidado com não conseguir se encaixar em nenhum trabalho pois “você não acredita mais em nada disso”

Cuidado com seu desinteresse pela política, economia e educação do seu país. É muito tentador se abster já que “está tudo errado”.

Cuidado quando não quiser sair com seus amigos e se divertir porque “você não quer estar em lugares com baixa energia”.

Cuidado ao ter dificuldade em se relacionar com outras pessoas, pois você supostamente “é um ser mais evoluído”

Se descobrir e se conhecer é maravilhoso. Cuidar do seu nível energético é essencial. Ter princípios e fazer o máximo para seguí-los é necessário. Estar por perto de pessoas que tenham as mesmas visões que você é inspirador.

Mas também é muito bom dar risada ao assistir uma bobeira na TV. É muito importante saber se adaptar à situações alheias aquilo que você acredita. É muito gostoso estar com pessoas que você ama e que sejam diferentes de você. É crucial tomar alguma ação no mundo que existe hoje, que seja tentando mudá-lo para melhor, mas agindo e se inteirando.

Sinto que a mudança só acontece nesse equilíbrio. Hoje meu desafio é justamente sair um pouco de mim e levar esse aprendizado para o mundo.

E você?