
O dia em que não havia mão para segurar a minha
Já se passaram alguns meses e sinceramente a ausência dele não dilacera mais meu peito. Gosto de vê-lo feliz com seu novo amor e sei que não nos completaríamos mais nem agora e nem em anos. Aqueles anos em que estávamos inebriados numa nuvem permanete de paixão haviam passado e nós não merecíamos nada menos que aquilo. Eu sabia disso no dia em que peguei minhas malas e sai pela porta da frente sem querer olhar pra trás. Eu não queria ver o meu lar sem mim.
Eu tinha certeza do nosso desencontro na vida, e se não tivesse, jamais o teria deixado. É que eu sabia que ele tinha um entendimento tão peculiar da própria vida que precisaria voar, assim como eu. Nossos voos solos eram demasiadamente importantes e nos afastavam cada vez mais, imersos em nossas bolhas, e com pouco tempo para aquela entrega que deveria ser tão fácil.
É engraçado tentar explicar em que momento a minha vida passou a não ter mais espaço para bater o leite com nescau e açúcar dele no liquidificador e rir dos penteados com shampoo que ele fazia durante o banho. Quando foi que, ao vê-lo sentado a mesa de trabalho, eu desisti de me encaixar no seu colo e pedir por carinho. E mais do que isso, em que momento deixou de ser importante pra ele me comprar um kit kat pra alegrar meu dia, pegar minha mão e sair sem destino pela cidade enquanto cantávamos juntos Clarice Falcão no carro?
Só sei que aconteceu. E entre conversas longas com as amigas, tequilas, mudanças, viagens, experiências, pessoas novas e autoconhecimento eu pude finalmente começar a dar meus próprios passos. Segui sozinha esse novo mundo das decisões solo, dos erros e acertos solitários. E quando eu estou perdida, triste e confusa a única coisa que eu queria era ter aquela mão segurando a minha e me dizendo “estamos juntos”. E então, antes que eu me permita sentir saudades, me esforço pra lembrar que não nos supríamos mais e espero pelo dia em que alguém apareça, não para me preencher, para me transbordar.