A mídia americana e a questão latina

“Querido Negro Não-Americano, quando você escolhe vir para os Estados Unidos, vira negro. Pare de argumentar. Pare de dizer que é jamaicano ou ganense. A América não liga”

Sempre me incomodei com a expressão “latina” e “hispânica”. A América Latina engloba vinte países no mero fato que eles tem como língua, uma língua românica derivada do latim (no caso espanhol, português e francês). Os brasileiros são diferentes dos venezuelanos que são diferentes do uruguaios que são diferentes dos jamaicanos, mas aqui estamos, se não temos a pele suficientemente escura para sermos considerados negros somos latinos aos olhos americanos.

Escolhi a frase do livro Americanah da Chimamanda Ngozi Adichie para começar esse texto porque ela também critica isso em questão aos negros não americanos. E acredito que a crítica dela seja mais abrangente ainda porque nós aqui no Brasil muitas vezes colocamos africanos em um balde só, não ligamos se são nigerianos, etíopes, ganenses. A questão dos negros é mais complicada, sofrem bem mais preconceitos que os latinos, não estou também falando que é tudo a mesma coisa, deixo claro. Só quis abrir o texto com a frase desse livro maravilhoso que me fez pensar muito e que achei que se aplicava apesar de situações diferentes.

Esse debate também está em Orange is The New Black, série que sempre abordou temas delicados, na sua quarta temporada traz um pouco mais da questão latina. Novas detentas chegaram a Litchfield, a grande maioria latina e os personagens não-latinos não ligam se elas são da República Dominicana, do México ou da Bolívia, são latinas, são hispânicas, estão tomando o lugar delas.

Maritza (Diane Guerrero), Flaca (Jackie Cruz) e Daya (Dascha Polanco) em Orange Is The New Black

Como brasileira esse discurso me incomoda, primeiro porque hispânico diz a respeito de quem fala espanhol, no Brasil falamos português e aí, como ficamos? Depois porque só no nosso país já temos tantas diferenças, tantas miscigenações. Lembro do vídeo “100 anos de beleza brasileira” que o Buzzfeed fez, a modela usada era Cintia Dicker, uma brasileira ruiva, de pele bem clara e sardas, comentários gringos e brasileiros reclamavam que ela não parecia brasileira. Os criadores disseram saber da miscigenação brasileira e disseram que poderiam fazer outro vídeo com outra modelo e outros padrões de beleza no futuro.

Mas como se parece o brasileiro? O brasileiro é branco, negro, pardo, oriental, indígena, cabelo preto, castanho, ruivo, loiro, crespo, encaracolado, liso. E como se parece o latino? Aos olhos dos americanos é só ter uma leve cara de índio e/ou não ter a pele muito escura e nem muito clara e voilá você é latino.

Me incomoda essa estereótipo todo. Como colocar em um só pote todas essas diferenças não só da aparência, mas da língua, da cultura, dos costumes? Argentinos, brasileiros, haitianos, mexicanos, chilenos somos todos tão diferentes e ainda assim os Estados Unidos confirmando seu estereótipo de só olhar pro próprio umbigo parece achar que é tudo a mesma coisa.

Sofia Vergara como Gloria Delgado-Prichett em Modern Family

E aí claro temos o que é o latino para os Estados Unidos na mídia. Imigrantes ilegais, jardineiros, mulheres sedutoras e curvilíneas, mas que também são esquentadinhas, sempre o alívio cômico, nunca o protagonista. Orange Is The New Black é sempre um tapa na cara de conservadores, lá temos mulheres de diferentes nacionalidades, personalidades, tamanhos e ambições.

Infelizmente sabemos que a série do Netflix é minoria nesse quesito. Por exemplo, Michael Peña, faz o alívio cômico de Homem-Formiga e em Perdido em Marte é um dos astronautas, mas de onde ele era? Eu lembro na hora que o astronauta careca era alemão e não simplesmente europeu, mas Peña? Eu só lembro dele como latino.

Michael Peña como Rick Martinez em Perdido em Marte

A América Latina tem 20 países diferentes, com diferentes sotaques, cores e hábitos. Já passou da hora de a mídia parar de estereotipar tudo como latinos, hispânico e nos tratar como inferiores.

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